O Mecanismo do Padilha é um Tropa de Elite sem Diversão


Estou passando longe de qualquer debate acerca da Operação Lava-Jato, condenação do Lula e outras coisas indigestas da política nacional, porque pra mim já deu. Minha mente estava concentrada em outras coisas como o BBB e assistir séries que prometi acompanhar e deixei de lado. Mas atendendo a um pedido do Bigode do Comissário, lá fui eu ver a mais nova produção BR do momento. E acreditem: nem sempre deixar de maratonar That 70 Show pra satisfazer a vontade de um amigo pode ser um bom negócio.


Obrigado?

Que o país está dividido, isso não é preciso o Leandro Karnal vir nos dizer. Mas essa problemática começou a atingir até a plataforma do Netflix. De um lado, uma patota entusiasmada com a nova empreitada do José Padilha. Do outro, pessoas insatisfeitas com certas "liberdades artísticas" feitas, chegando ao píncaro de cancelarem suas assinaturas no serviço streaming. Alguns diriam que isso é exagero, mas a série causa realmente esses sentimentos conflitantes nas pessoas. Padilha até tenta juntar todas as tribos que nem o Norvana com O Mecanismo, mas no fundo agrada mesmo é a galera do pato amarelo, da camiseta da CBF e da dancinha do Impeachment.



A série acompanha o policial federal Marco Ruffo, um claro recalcado que vira a lixeira de seu desafeto de infância, o picareta Roberto Ibrahim, em busca de provas de que ele é um grandessíssimo mal-caráter. A princípio até descola uma prisão pro cara, mas tal qual o Papa-Léguas faz sempre com o Coiote, Ibrahim jogou toda a dinamite no colo de Ruffo e sai ileso da situação. Desde então, ele e sua parceira/secretária Verena passam anos tentando botar o escorregadio doleiro na cadeia. Até se depararem com pistas que incriminam não só Ibrahim, mas todo mundo que se beneficia de seu esquema, de empresários, passando por políticos e até o ex-presidente da república e sua candidata biônica. Alea jacta est, amigos!



Não há outra forma de encarar O Mecanismo se não como uma grande paródia da nossa realidade travestida de trama séria com pinceladas de Christopher Nolan na trama. Acreditem, assim como o superestimado cineasta britânico, Padilha tenta dar verossimilhança a situações, mesmo que os interlocutores nos tratem como débeis mentais com o recurso batidíssimo de voiceover, ou falem entre si todos os próximos passos da operação, como se eles sofressem de uma amnésia a curto prazo. Por falar em Nolan, o protagonista interpretado por Selton Mello trás pitadas de Batman do Christian Bale, até na sociopatia do personagem. Na defesa descarada ao estado policial até o aparecimento de um vigilante messiânico pra nos livrar da sujeira da própria civilização. Aliás, o diretor adora personagens assim. Imagino ele sendo responsável por uma reinterpretação do Hannibal Lecter, dessa vez nos fazendo acreditar que é normal o serial killer ter apetite por carne. A Verena também não fica atrás. Na passagem de tempo, ela comenta sobre a chegada de um partido de iniciativa popular ao poder, mas que nada disso a havia impressionado, porque "câncer é câncer". Uau, quase uma ancap. Consigo até imaginar ela nos grupos de Whatsapp da família postando coisas sobre médicos cubanos e Foro de São Paulo.
Já o doleiro é o que desperta mais empatia em mim, visto que ele é só um brasileiro bem sucedido que gosta de se divertir bastante e presentear seus amigos. Até vir aquela polícia estraga prazeres e acabar com tudo. Lembra muito O Lobo de Wall Street do Martin Scorsese, sendo que o Enrique Diaz não é nenhum Leonardo DiCaprio. Talvez seja a forma do Padilha dizer que se alguém adorou esse personagem então também é um câncer que merece ser extirpado. Então vou ter que abstrair o Walter White, o Tony Soprano e o Michael Corleone da minha mente.


Cala a boca e me beija!

O melhor momento da série é quando o personagem do Selton Mello morre. Já o pior é quando ele retorna, tal qual o Comissário Gordon em Dark Knight (olha aí, mais uma referência ao Nolan). Nada contra o Selton Mello, mas seria legal manter a câmera e ele afastados por um bom período.
Falando sério agora: o Arthur Kohl (lembrado por suas participações no Ra Tim Bum) está antológico como o Lul..., digo, o João Higino. Se não fosse a careca (e o fato de ser o Arthur Kohl), daria pra enganar como um ex-presidente. Matou tanto a pau que deram pra ele até linhas de diálogos que não condiziam com o seu alter-ego na realidade (como o "estancar sangria" ou "grande acordo").



HIGINO, BRILHA UMA ESTRELA!

A série tem seus altos e baixos. Ri de algumas cenas, mas notei que boa parte do tempo estava bocejando e lamentando passar a minha noite de sábado assistindo àquela peça de clichês. Acho que preferia ter assistido ao filme do Plano Real (sério). Afinal, como bem classificaram os rapazes do Choque de Cultura, é um comédia, involuntária mas é. Aliás, o quanto tem de ator do filme aqui! A impressão que dá é de que o Emilio Ociollo Neto e os demais assinaram aquelas 10 Medidas contra a Corrupção do Ministério Público e isso garantiu a eles passe eterno à produções como esta. Falando em Ministério Publico, eis que os promotores dão o ar da graça. A série faz com que toda a força-tarefa e sua ideia quixotesca de prender os poderosos com base em convicções e nenhuma prova se resumisse a um ex-namorado da Verena, um jovem obstinado e um pouco afoito, que gosta de comemorar seus êxitos com sua eterna crush em cenas exageradas de sexo. E é claro, não podia faltar ele: o Sérgio M..., digo, o Rigo. Aqui, ele não é o herói, e sim um cara vaidoso que quer a todo custo a cabeça de seus algozes em uma bandeja de prata. Isso em um primeiro momento pode soar como isenção, mas na verdade só corrobora com a ideia de que Ruffo e sua ideologia megalomaníaca é que estão corretos e todo mundo precisa pintar o rosto com o símbolo da Polícia Federal e sair por aí espancando político e doleiro. Ah, a série bate na oposição tá, seus esquerdistas! Mas é bem en passant... e falta mais gente ali. Talvez uma certa ex-ministra metida a ambientalista e que flerta com a galera do banco e pastores picaretas. Quem sabe na segunda temporada! Por enquanto, a verdadeira agradece a sua ausência e de maneira, bem oportunista, ainda vilipendia a imagem de uma ex-vereadora que era contra tudo que a série defende.

Oportunismo é pouco...


Temos que dar um desconto e tratar a série como uma grande peça ficcional. Afinal, não existe agente da PF que ganhe tão mal assim. Mas tudo bem passar algumas informações erradas pro público, principalmente os estrangeiros que irão assistir a série. É como o Ministro da Comunicação de Hitler, o Joseph Goebbels, falava: uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade. José Padilha prefere acreditar que finalmente vai fazer todos olharem pra frente porque não existe essa de direita e esquerda, visto que é tudo a mesma coisa. A síndrome de Capital Inicial é inevitável.


Veja na Leia, ou leia na Veja. Sei lá, porra!


No final, a obra só reforça a tese de que um vigilante precisa nos salvar da maldade intrínseca no coração de cada um. Esse homem tem que ser policial, probo... e um pouco sociopata. A polêmica foi instaurada, e independente de você gostar da obra ou não, o realizador só tem a ganhar com isso. Lembra muito o Dark Knight Returns do Frank Miller, com a diferença de que com a HQ eu me diverti mais. Saudade dos bordões do Tropa de Elite... E pensar que ainda falta O Doutrinador esse ano. Deus me dibre!

VOLTEMOS PRO THAT 70 SHOW!!!


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