Extermínio: O Templo dos Ossos | Crítica



O mal não é sobrenatural, assim como a bondade só pode ser humana.

    Estreia hoje nos cinemas mais um capítulo da franquia Extermínio. O novo longa foi filmado conjuntamente com o anterior, Extermínio: A Evolução. Enquanto o primeiro foi dirigido por Danny Boyle, O Templo dos Ossos tem direção de Nia DaCosta.

    O foco deste segundo capítulo recai sobre o Dr. Kelson (Ralph Fiennes), envolvido em uma nova e perturbadora relação, com consequências capazes de alterar o mundo como ele é conhecido, e sobre o encontro entre Spike (Alfie Williams) e Sir Jimmy Crystal (Jack O’Connell), que rapidamente se transforma em um pesadelo sem escapatória. No universo de O Templo dos Ossos, os infectados já não são a maior ameaça à sobrevivência. A desumanidade dos próprios sobreviventes revela-se ainda mais aterradora.

    O que chama atenção tanto em Extermínio: A Evolução quanto em O Templo dos Ossos é a impossibilidade de separá-los. Funcionam como uma única obra, embora não adotem a divisão clássica de “parte um” e “parte dois”, optando por subtítulos. É possível assistir aos filmes sem ter visto Extermínio (2002), protagonizado por Cillian Murphy e Naomie Harris, mas é praticamente impossível compreender O Templo dos Ossos sem passar por A Evolução. Esse encadeamento é um dos grandes méritos do roteiro de Alex Garland, que constrói um soft reboot sólido do universo criado em parceria com Danny Boyle.

    Durante o auge de The Walking Dead, tornou-se comum ouvir que a série falava mais sobre relações humanas do que sobre zumbis, revelando as falhas estruturais da sociedade. Essa constatação, no entanto, não era novidade. George A. Romero já explorava esse caminho em A Noite dos Mortos-Vivos, e anos depois Garland e Boyle ajudaram a reinventar o gênero. The Walking Dead apenas traduziu para a televisão, de forma mais didática, o que o cinema já vinha fazendo há décadas. Mais uma vez, a franquia Extermínio renova o gênero ao reforçar que o terror é, acima de tudo, uma metáfora da realidade.

    Se em A Evolução é possível ler o isolamento da Inglaterra pós-Brexit, simbolizado por uma ilha apartada do continente, o filme também avança ao tratar do amadurecimento forçado de Spike e da mortalidade, abordando a necessidade de celebrar a vida mesmo sob a presença constante da morte. Além disso, introduz de maneira mais direta a questão religiosa, que se torna central na sequência.

    Em O Templo dos Ossos, Ralph Fiennes entrega ainda mais camadas ao Dr. Kelson, que passa a estudar o Alfa Sansão (Chi Lewis-Parry). Aos poucos, os dois desenvolvem uma relação peculiar, especialmente quando Kelson percebe que Sansão reage com prazer aos dardos tranquilizantes. Aproveitando esses momentos de calmaria, o médico tenta dialogar. Diferente dos demais sobreviventes, Kelson não deseja apenas exterminar os novos “donos” do mundo, ele quer compreendê-los e, talvez, reverter a situação.

    Em determinado momento, o filme adota a perspectiva dos infectados, revelando que eles enxergam os humanos como os verdadeiros infectados. Essa inversão dialoga diretamente com a forma como sociedades constroem o outro como ameaça, inimigo ou ser inferior, leitura que se conecta ao isolamento inglês e ao medo da imigração após o Brexit. Ainda assim, O Templo dos Ossos vai além dessa camada política e aprofunda com força a dimensão religiosa.

    Se Ralph Fiennes está excelente, Jack O’Connell rouba a cena como Sir Jimmy Crystal, líder dos Dedos. O ator constrói um retrato perturbador de um líder religioso extremista. Apesar de se declarar satanista, o que se vê é uma versão do cristianismo observada pelos olhos de quem sofre suas consequências. Um cristianismo invertido, violento e messiânico.

    No prólogo de A Evolução, Jimmy, filho de um pároco, se refugia na igreja onde o pai atua e presencia sua “acolhida” pela horda de infectados. Anos depois, surge como líder dos Dedos, grupo que remete diretamente à gangue de Alex em Laranja Mecânica. A diferença é que Sir Jimmy e seus seguidores não caçam infectados, eles são uma ameaça direta aos poucos humanos restantes, guiados por uma fé distorcida.

    Nesse ponto, o filme dialoga diretamente com As Cruzadas vistas pelos Árabes, de Amin Maalouf. Assim como o autor revisita as Cruzadas a partir de fontes árabes, revelando cruzados movidos por fanatismo, ambição e violência, Sir Jimmy encarna o ódio religioso visto pelo olhar de quem o sofre. Ele não representa a fé, mas sua face mais raivosa, destrutiva e desumanizada. A narrativa acerta ao trabalhar essa dimensão de forma visceral.

    Ao mesmo tempo em que apresenta essa versão espelhada do amor cristão, o filme explora com precisão a performance religiosa e a devoção sem questionamento. Ao encontrar o Dr. Kelson, Sir Jimmy pede que ele finja ser seu pai, Old Nick, nome pelo qual o diabo é conhecido na Inglaterra. Kelson aceita e protagoniza uma das cenas mais impactantes do cinema recente, demonstrando como a religião depende de encenação, ritual e performance. Até mesmo aqueles que se dizem satanistas precisam ser convencidos por meio de símbolos e atos teatrais. Sir Jimmy recorre a essa farsa porque o questionamento começa a surgir entre os Dedos, revelando como a fé exige cegueira absoluta e ausência de dúvida.

    Tudo isso funciona graças à direção segura de Nia DaCosta. Livre das amarras da Marvel e amparada por um roteiro forte, a diretora entrega um filme coeso, bem filmado e mais impactante que o anterior. A diferença de abordagem entre os dois longas é perceptível, e DaCosta assume com competência a responsabilidade de conduzir essa segunda parte, oferecendo um resultado superior.

    Outro destaque é a trilha sonora, com músicas de Duran Duran, Radiohead e Iron Maiden, além do retorno da icônica In the House – In a Heartbeat, de John Murphy. A reintrodução do tema original fortalece a atmosfera do longa e cria uma ponte emocional com os fãs da franquia.

    Extermínio: O Templo dos Ossos é um excelente filme para começar o ano, especialmente para quem busca um terror que vá além do susto. É uma obra que merece ser vista no cinema, pela atmosfera, pelo desenho sonoro e, sobretudo, pela sequência no templo com a performance de Ralph Fiennes. Deixar de assisti-lo na tela grande é perder uma experiência de imersão rara no gênero.