Chega neste feriadão (Rio de Janeiro) o tão aguardado filme biográfico do Rei do Pop, Michael. A proposta é ambiciosa: contar a história de Michael Jackson (Jaafar Jackson) para além da música, acompanhando sua trajetória desde o Jackson Five até a consolidação como o maior artista do mundo. O filme acerta ao destacar não só os palcos, mas também bastidores e momentos-chave da carreira solo inicial, oferecendo uma visão ampla do astro.
Já de início, o longa deixa claro seu foco no espetáculo. A abertura com “Wanna Be Startin’ Somethin’” dita o ritmo: é um filme pensado para ser sentido. Dirigido por Antoine Fuqua (O Protetor), a narrativa percorre três décadas, de 1966 a 1988, cobrindo do surgimento do Jackson Five à saída de Michael do grupo. Funciona como linha cronológica, mas raramente como investigação dramática.
E é exatamente aí que está o principal problema. Michael é um filme eficiente como entretenimento, mas frágil como cinebiografia. Ele opta por mitificar em vez de aprofundar. Ao invés de explorar conflitos, contradições e consequências, prefere organizar a vida do artista como uma sequência de momentos icônicos já conhecidos pelo público.
O roteiro insiste em antecipar eventos de forma didática, quase mecânica. Quando Joseph Jackson chama o filho de “Big Nose” e, logo depois, vemos o jovem Michael lendo Peter Pan, a construção não sugere, ela entrega. Não há espaço para interpretação, apenas confirmação. Esse padrão se repete ao longo do filme: símbolos são usados não para enriquecer a narrativa, mas para simplificá-la. O resultado é uma obra previsível, que trata o espectador como alguém que precisa ser guiado o tempo todo.
O mesmo problema aparece na abordagem de eventos históricos. A criação de “Beat It”, por exemplo, é tratada de forma fantasiosa, sugerindo uma mediação direta de Michael entre Crips e Bloods, sem qualquer desenvolvimento real desse impacto. O filme levanta a ideia, mas não sustenta. Isso não é apenas uma simplificação, é uma escolha que esvazia o peso histórico do momento.
Com “Thriller”, a lógica se repete. A participação de Vincent Price é reduzida a um encaixe narrativo previsível, ignorando o contexto real, como a influência de Peggy Lipton na sugestão. Mais grave do que a imprecisão factual é a ausência de consequência: o filme não mostra o que “Thriller” representou culturalmente. Ele apenas marca o evento como mais um item da lista.
Esse padrão revela o verdadeiro limite do longa. Ao cobrir três décadas, ele sacrifica profundidade em favor de amplitude. Nenhum tema é desenvolvido com consistência, nem a fama, nem os conflitos pessoais, nem o impacto cultural. Sabemos que Michael Jackson é um fenômeno global, mas o filme raramente nos faz sentir isso de forma concreta. A idolatria aparece, mas nunca é analisada.
Ainda assim, o filme funciona. E funciona porque se apoia em um elemento incontornável: a música. São as performances, as canções e o carisma que sustentam a experiência. Quando o filme para de explicar e apenas mostra, ele melhora. O problema é que esses momentos não são suficientes para sustentar o conjunto.
Mesmo com tantas fragilidades, Michael não é um fracasso. Ele entretém, deve emocionar fãs e tem potencial claro de bilheteria. Há inclusive a indicação de uma continuação, provavelmente focada no período mais controverso da vida do artista. Isso reforça a sensação de que este primeiro filme funciona mais como construção de imagem do que como retrato completo.
No fim, o diagnóstico é direto: Michael é uma cinebiografia que prefere preservar o mito a investigar o homem. Funciona como espetáculo, mas falha como narrativa. E isso cria um contraste inevitável, o filme é menor do que o artista que tenta retratar.


