Gozo e Representação: Bad Bunny, Cultura Latina e a Classe Média Digital


    No último domingo, o músico Bad Bunny protagonizou um dos momentos mais comentados do Super Bowl LX, a final do futebol americano. Sua apresentação no show do intervalo foi um espetáculo vibrante, repleto de iconografias que celebravam a cultura latina em um evento tipicamente estadunidense. A repercussão foi tamanha que o presidente Donald Trump se manifestou em suas redes sociais, declarando: “Absolutamente terrível, um dos piores de todos os tempos! Não faz sentido nenhum, é uma afronta à grandeza da América e não representa nossos padrões de sucesso, criatividade e excelência”. O comentário de Trump, longe de diminuir a performance, evidencia o sucesso que a apresentação de Bad Bunny alcançou ao provocar reações intensas, especialmente de setores conservadores.

    A iconografia utilizada por Bad Bunny foi cuidadosamente elaborada para transmitir mensagens profundas. Desde as plantações de cana-de-açúcar, que remetem à história colonial e à exploração de Porto Rico, até cenas cotidianas que celebram a resiliência e a alegria da cultura porto-riquenha, cada elemento visual serviu como um gesto de afirmação cultural. A performance, cantada integralmente em espanhol, recusou a assimilação e reforçou a identidade latina em um palco global, deslocando o eixo simbólico de um evento que historicamente representa o imaginário dominante dos Estados Unidos.

    Contudo, ainda que a apresentação de Bad Bunny tenha sido um sucesso gigantesco e muito bem produzida, não podemos ignorar a lógica do consumo político na era digital. Em poucos dias, o evento tende a ser absorvido, compartilhado e descartado, não apenas pela velocidade com que as redes sociais moldam a atenção pública, mas porque seu papel simbólico já foi cumprido: ele ofereceu um gozo identitário imediato. Aqui entra o filósofo Robert Pfaller, com o conceito de interpassividade (frequentemente mobilizado por Slavoj Žižek), que descreve situações em que terceirizamos nossa experiência emocional e nosso engajamento para um objeto cultural. Quando a classe média brasileira, predominantemente branca, posta nos stories seu orgulho de “ser latino”, ela não está necessariamente se aproximando de uma realidade latino-americana concreta, mas consumindo uma latinidade estética, segura e temporária. O gesto político já vem pronto, embalado, e o sujeito apenas o compartilha. O gozo passa, a publicação desaparece, e o que resta é exatamente isso: a delegação do sentimento e da participação, isto é, a interpassividade.

    Esse processo fica evidente quando recordamos o fenômeno de “This Is America”. Lançado em 2018, o clipe do músico Childish Gambino se tornou um enorme sucesso e foi amplamente debatido nas redes sociais. Repleto de iconografias, o vídeo expõe a violência estrutural e o racismo que atravessam a sociedade estadunidense. Durante semanas, análises, vídeos explicativos e discussões dominaram a internet, como se o simples ato de interpretar as imagens fosse, por si só, um gesto de transformação política. E aqui é preciso ser direto: não se trata de dizer que um clipe poderia impedir um assassinato, mas de mostrar como a comoção digital frequentemente se esgota no consumo simbólico da denúncia. Em 2020, George Floyd foi assassinado por um policial, evidenciando que a violência não havia sido interrompida, apenas temporariamente absorvida como espetáculo, debate e tendência.

    Assim, a apresentação de Bad Bunny pode ser lida como um ato potente de resistência simbólica, mas também como mais um exemplo de como o capitalismo contemporâneo absorve até mesmo a crítica e a converte em mercadoria. A performance escandaliza, emociona e mobiliza, mas corre o risco de terminar exatamente onde começou: no consumo de um momento que permite ao público “participar” da política sem sair do lugar.