Muito se fala do Superman como o herói que “salva gatinhos em cima de árvores”, símbolo máximo de bondade e altruísmo. Contudo, pouco se reconhece que o Homem-Aranha merece esse mesmo elogio, talvez até com mais veemência. Arrisco dizer que, em muitos momentos, o Cabeça de Teia representa de forma mais concreta o ideal do herói do que o próprio Azulão.
Peter Parker aprende, na dor e na perda, o verdadeiro significado de ser herói, algo bem distinto do que o senso comum costuma imaginar. A icônica lição “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” é frequentemente atribuída ao Tio Ben, mas, na verdade, ela surge como narração apenas no final de Amazing Fantasy #15 (1962), sendo incorporada à figura do personagem como fala direta dele somente mais tarde.
E isso é importante porque essa frase não é só uma frase bonita. Ela é a essência do personagem.
Ao contrário do Superman, Peter Parker não é um semideus tentando se encaixar entre humanos. Ele é um humano comum tentando sobreviver enquanto carrega um fardo que não deveria ser de ninguém. Diariamente, sacrifica a própria vida, tempo e estabilidade para salvar terceiros. Ele não apenas enfrenta vilões, ele enfrenta o desgaste cotidiano de ser alguém que sempre escolhe o outro antes de si mesmo.
E talvez por isso o Homem-Aranha seja tão poderoso como símbolo. Porque ele não é o herói que salva o mundo com facilidade. Ele é o herói que salva o mundo e ainda precisa se preocupar com aluguel.
Peter Parker é, acima de tudo, um herói da classe operária. Vive vendendo o almoço para comprar a janta. É explorado por J. Jonah Jameson, que lucra milhões com o sensacionalismo do Clarim Diário, alimentado justamente pelas fotos que Peter produz. Mesmo sendo brilhante, Peter permanece preso ao subemprego de fotógrafo freelancer porque sua vida é atravessada por um compromisso moral que o impede de priorizar a própria ascensão.
No fim, o Homem-Aranha é um herói não apenas por lutar contra o crime, mas por combater a própria precariedade. Ele salva o mundo sem nunca deixar de ser alguém que precisa pagar boleto. Essa é a essência do Homem-Aranha dos quadrinhos, da animação dos anos 90 e, principalmente, da visão de Sam Raimi eternizada por Tobey Maguire.
Mas então a Disney entrou em cena.
Quando a Disney firma parceria com a Sony e traz o Homem-Aranha “de volta para casa”, agora dentro do universo do MCU (que completou 11 anos neste ano), toda essa essência do herói trabalhador começa a ser esvaziada. O Homem-Aranha de Tom Holland se torna um personagem moldado por uma lógica de tutela, alguém que cresce em um mundo onde bilionários são exaltados e onde o heroísmo é mediado por instituições, tecnologia e autorização.
O altruísmo e a bondade ainda existem, mas agora filtrados por um modelo de heroísmo corporativo, distante da precariedade cotidiana que sempre definiu Peter Parker.
Essa leitura, inclusive, já foi apontada em análises como a da Jacobin Brasil, que discute como o Homem-Aranha, símbolo clássico do herói trabalhador, foi reconfigurado no MCU para caber num imaginário corporativo, onde o bilionário deixa de ser parte do problema e vira o centro da solução.
E isso explica por que o Peter Parker do MCU parece ter perdido sua consciência de classe. Na verdade, ele nem precisa dela. Se tivesse, dificilmente seria sidekick do Homem de Ferro.
Dito isso, vem comigo entender por que o Homem-Aranha do MCU perdeu o que o herói tinha de mais precioso: o heroísmo.
Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017)
Quando surge a ameaça do Abutre, um criminoso que comercializa armamentos construídos a partir de tecnologia alienígena, Peter vê a oportunidade perfeita para provar seu valor, mesmo que isso o coloque em conflito direto com sua vida comum e com sua própria noção de responsabilidade.
Só que aqui já existe um problema estrutural.
Um dos pilares fundamentais da construção de Peter Parker, tanto nos quadrinhos quanto nos filmes de Sam Raimi, é a morte do Tio Ben. O MCU escolhe tratar isso de forma quase invisível. E Peter, nesse universo, não pode ter um Tio Ben com peso dramático real por um motivo simples: a figura paterna aqui é Tony Stark.
É ele quem ocupa o espaço simbólico de referência, autoridade e aprovação. Inserir Ben Parker como fundamento moral do personagem significaria dividir esse lugar, criando um centro emocional concorrente para aquilo que Stark representa na narrativa.
O resultado é claro: o alicerce do Homem-Aranha é deslocado.
Sem a morte do Tio Ben como ferida central, não existe culpa, não existe aprendizado profundo, não existe o fio condutor que transforma um adolescente comum em alguém disposto a sacrificar a própria vida por estranhos. O que resta é um Peter movido menos por responsabilidade e mais por validação.
No filme, Peter não quer apenas namorar a garota de quem gosta. Ele quer provar seu valor para Tony Stark e conquistar um lugar entre os Vingadores. A lógica do herói deixa de ser moral e passa a ser institucional: ele não quer ser herói porque aprendeu o peso do mundo, ele quer ser aceito pelo clube certo.
Peter erra durante o filme, desagrada Tony e, ao final, retorna ao uniforme simples que ele mesmo customizou. Ele recusa o convite para se juntar aos Vingadores e, por alguns instantes, parece que finalmente aprendeu a lição.
Mas existe um detalhe revelador.
Após negar a proposta, Peter pergunta a Tony se aquilo tudo foi um teste, se toda a encenação da coletiva de imprensa era uma forma de avaliar sua decisão. Tony mente e diz que sim.
E essa pergunta, aparentemente pequena, entrega tudo.
Mesmo quando Peter faz a escolha certa, ele não consegue sustentar essa decisão como autonomia moral. Ele precisa acreditar que estava sendo avaliado. Ou seja, a recusa não é exatamente uma ruptura. É só mais uma etapa dentro da lógica de tutela.
Peter não age movido por uma consciência própria. Ele age tentando se provar para o homem certo.
No MCU, o heroísmo deixa de ser ética e sacrifício e vira currículo. Não é responsabilidade. É validação.
Homem-Aranha: Longe de Casa (2019)
Recrutado por Nick Fury, Peter é jogado de volta no campo de batalha para enfrentar os chamados Elementais, criaturas que espalham destruição pelo continente. No meio desse cenário, ele encontra Mysterio (Jake Gyllenhaal), um herói misterioso que parece surgir como resposta perfeita para o vazio deixado por Tony Stark.
E aqui já dá para perceber o ponto: o filme não mostra Peter amadurecendo, mostra Peter procurando um substituto.
Com o segundo longa, percebemos que o Peter Parker de Tom Holland não aprendeu nada com o fim da primeira aventura. Ele está focado em conquistar MJ na viagem para a Europa, e o Amigão da Vizinhança decide abandonar a vizinhança para viver uma eurotrip.
Ele não quer ser Homem-Aranha nas férias, afinal de contas, são férias. Ele só vai “ser” o Homem-Aranha porque a Tia May coloca o uniforme na mala.
E aqui fica evidente o que o MCU tenta evitar desde o começo: a falta que o Tio Ben faz.
Com o sacrifício de Tony Stark em Vingadores: Ultimato, Peter perde sua figura paterna. E, para piorar, Tony ainda deixa para ele uma responsabilidade gigantesca: os óculos E.D.I.T.H., um sistema de inteligência artificial avançado criado por Stark, basicamente uma arma de destruição em massa.
O que Peter faz com isso?
Entrega.
Após lutar ao lado do Mysterio, Peter transfere essa arma mega poderosa para um cara que ele conheceu há pouco tempo. E isso não é apenas ingenuidade adolescente. É fuga de responsabilidade. É o oposto do princípio fundador do personagem.
Aqui, não falta apenas o Tio Ben, como também falta a grande lição, que adianto, faz falta nos três filmes: com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.
O Homem-Aranha do Tom Holland ajuda pessoas, mas não consegue encarnar a essência do herói que o Homem-Aranha representa.
E aqui eu preciso abrir um parêntese, porque existe uma linha política muito clara atravessando esses filmes.
O primeiro e o segundo longa reforçam como a classe operária é marginalizada no MCU. No primeiro filme, o Abutre, personagem de Michael Keaton, é impedido de fazer seu trabalho e as Indústrias Stark assumem o monopólio da tecnologia Chitauri. No segundo, o Mysterio é um ex-funcionário de Stark, junto com outras pessoas que Stark sacaneou.
Ou seja: trabalhadores são transformados em vilões.
Em nenhum momento existe uma reflexão real sobre isso. A questão aqui não é defender o que eles fazem de errado, mas mostrar como não existem dois pesos e duas medidas. No MCU, bilionários erram e viram heróis. Trabalhadores erram e viram monstros.
Ao final do filme, parece mais uma vez que Peter aprende com seus erros. Mas ainda temos a terceira aventura.
Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa (2021)
E aqui a trilogia fecha seu padrão: Peter sempre precisa de supervisão adulta.
No primeiro filme, é Tony Stark.
No segundo, é Mysterio.
No terceiro, é Doutor Estranho.
Em todos os três, Peter causa um problema porque age de forma egoísta, impulsiva ou irresponsável. E sempre existe um adulto para apagar o incêndio.
É justamente nessa aventura que o Homem-Aranha do MCU conhece os outros dois Homens-Aranha do cinema: Tobey Maguire e Andrew Garfield. Dois personagens que carregam perdas reais, dores reais, e que foram forjados por um tipo de trauma que o MCU escolheu ignorar.
Tobey perdeu o Tio Ben.
Andrew perdeu o Tio Ben e depois perdeu Gwen.
E os dois foram jovens em seus filmes.
Ou seja: usar a juventude do Tom Holland como justificativa para sua imaturidade é um argumento frágil. Porque os outros também eram jovens. A diferença não é idade. A diferença é o mundo.
O Peter do MCU representa uma geração moldada por um imaginário onde bilionários são heróis, onde instituições são sagradas e onde responsabilidade é algo terceirizável. Ele não erra e aprende. Ele erra e busca aprovação. Erra e procura alguém para dizer o que fazer. Erra e pede desculpas para a autoridade do momento.
Esse é o verdadeiro arco dele.
Enquanto isso, o Homem-Aranha sempre foi o contrário disso. Sempre foi o herói que se vira sozinho. O herói que apanha, perde, se ferra, mas continua porque alguém precisa fazer o certo, mesmo que ninguém esteja olhando.
O Homem-Aranha do MCU, por outro lado, vive num mundo onde sempre tem alguém olhando. E pior: sempre tem alguém autorizando.
E o mais curioso é que existe uma indignação enorme na internet quando personagens mudam etnia ou gênero, como se isso destruísse uma essência. Mas quase ninguém percebe o que realmente aconteceu aqui.
Porque fisicamente Tom Holland é o Peter Parker. Ele tem a aparência, tem o uniforme, tem o nome.
Ele é Peter Parker sem o que define Peter Parker.
Ao final de Sem Volta Para Casa, parece que, finalmente, o personagem vai entrar na fase que realmente importa: a fase de sofrer, pagar aluguel, perder e amadurecer. A fase em que ele vira Homem-Aranha de verdade.
Só que o próximo filme já indica que, mais uma vez, ele vai estar cercado por adultos supervisionando. Talvez Doutor Banner. Talvez Justiceiro. Talvez outro nome grande do MCU.
E aí fica a pergunta: até quando?
Até quando o Homem-Aranha vai continuar sendo tratado como trainee de bilionário?
Porque o Homem-Aranha que a gente conheceu nunca foi isso. O Homem-Aranha sempre foi o herói que aprende sozinho, apanha sozinho e cresce sozinho.
E talvez seja por isso que o Homem-Aranha do MCU incomoda tanto quando a gente presta atenção.
Ele não é um herói em formação.
Ele é um herói domesticado.

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