Plano 75 | Crítica

 


    O Japão há muito tempo vem sofrendo com o envelhecimento de sua população. Dados recentes indicam que uma em cada 10 pessoas tem 80 anos ou mais. Não é por acaso que é o país com a maior população idosa do mundo. Inspirando-se em eventos reais, a diretora Chie Hayakawa apresenta o filme "Plano 75", que estreia agora dia 25 de abril nos cinemas, com distribuição da Sato Company.


    Em um Japão distópico, o programa governamental Plano 75 incentiva os idosos a realizarem uma eutanásia meio que "forçada", como solução para lidar com o envelhecimento da sociedade. Neste contexto, uma senhora idosa, cujos meios de sobrevivência estão desaparecendo, um vendedor do Plano 75 pragmático e uma jovem trabalhadora filipina precisam enfrentar escolhas entre a vida e a morte. "Plano 75" se une ao grupo de filmes recentes que fazem críticas à sociedade atual. A única diferença é que enquanto filmes como "Eu, Daniel Blake" e "Você não estava aqui", ambos do diretor Ken Loach, são um retrato dos anseios atuais, "Plano 75" se passa em um futuro distópico, mas com toques da sociedade atual, visto que o governo japonês não proporciona aos seus idosos uma velhice digna.


    O nome do plano faz referência à idade na qual os idosos já podem "escolher" realizar a eutanásia. O governo, para convencer a aderência ao Plano 75, promete aos candidatos um valor de cem mil ienes (equivalente a três mil reais), que podem ser gastos como o idoso quiser. Mas o valor em dinheiro não é a única isca para que os idosos aceitem se sacrificar pelo país que ajudaram a construir. Com um bom número de idosos morando na rua, a iniciativa do governo japonês investiu em várias abordagens para convencer a população idosa de rua a aderir ao Plano 75. Desde a arquitetura hostil, neste caso, implementação de divisórias em bancos de praças, para evitar que sejam utilizadas como camas, até oferecer jantas para que sirvam de isca para apresentar o plano.


    A diretora Hayakawa é muito competente em contar sua história trabalhando com os detalhes, sejam eles no roteiro ou nas imagens. Em uma determinada cena, o rádio está noticiando o sucesso do Plano 75. Esse assassinato em massa da população idosa gerou mais de um bilhão de ienes na receita do governo e não só isso, mas deu origem a vários negócios privados. Em uma simples cena, a diretora consegue de forma magistral realizar uma belíssima crítica ao capitalismo, que agora tem o aval do governo japonês em lucrar com a morte de idosos. Em uma determinada cena, duas senhoras estão em uma sala de espera de um hospital, onde a TV exibe um comercial do Plano 75. Incomodado, um homem tenta desligar a mesma, mas só obtém êxito quando puxa o aparelho da tomada.

A fotografia escura é um destaque do longa. A atriz Chieko Baishô . 

    Até uma possível referência ao Holocausto é realizada quando vemos dois funcionários separando os bens dos idosos mortos, quando um deles decide furtar um óculos.

    "Plano 75" levanta um debate interessantíssimo sobre como vamos lidar com uma população idosa quando ela for superior aos mais novos. O longa levanta vários questionamentos que estão presentes não apenas na sociedade japonesa, mas em outras pelo mundo afora. 


Nota: 7.5/10.