Todo remake carrega um peso enorme: o desafio de honrar o passado enquanto se adapta para uma nova geração. Agora, quem assume essa missão é o novo Highlander, estrelado por Henry Cavill. Mas reviver uma lenda do cinema exige mais do que um nome forte no cartaz.
Antes de falar de Highlander – O Guerreiro Imortal, é preciso voltar um pouco. A origem conceitual da obra dialoga diretamente com Os Duelistas, adaptação do romance de Joseph Conrad dirigida por Ridley Scott. No filme, dois oficiais do exército napoleônico, D’Hubert e Feraud, transformam um desentendimento banal em uma obsessão. Durante 16 anos, atravessam guerras, promoções e mudanças políticas, mas continuam se enfrentando em duelos cada vez mais violentos, até o confronto final.
É dessa premissa que Gregory Widen, criador de Highlander, parte para desenvolver sua história de guerreiros imortais condenados a duelarem até restar apenas um. A ideia surgiu quando Widen ainda era estudante da UCLA. Connor MacLeod foi concebido como parte de um projeto acadêmico. O que poderia ser apenas um exercício universitário se transformaria em uma das mitologias mais curiosas do cinema dos anos 1980.
Lançado em 1986, Highlander – O Guerreiro Imortal não foi um grande sucesso nos Estados Unidos. Teve desempenho melhor na Europa, mas insuficiente para ser considerado um blockbuster. O filme encontrou seu público, de fato, nas locadoras. Foi ali que ganhou status cult e formou uma legião de fãs.
Mas o que torna Highlander realmente singular não é apenas sua premissa ou seu conceito de imortalidade. É a atmosfera. E essa atmosfera tem um nome: Queen.
Inicialmente, artistas como Duran Duran, David Bowie e Sting foram cogitados para a trilha sonora. No fim, a responsabilidade ficou com o Queen. E o resultado não foi apenas uma trilha marcante, mas um elemento estrutural do filme. Who Wants to Live Forever, A Kind of Magic e Princes of the Universe não funcionam como simples músicas de fundo. Elas ampliam o drama, reforçam o épico e dão identidade à narrativa.
O impacto foi tão forte que a série de 1992 adotou Princes of the Universe como tema de abertura, consolidando a ligação entre a banda e a franquia. E é justamente aí que reside o maior desafio do remake.
O novo filme precisará decidir se reutiliza a trilha original, se encomenda uma nova composição ou se tentará reinterpretar as músicas que se tornaram icônicas. Não se trata apenas de nostalgia. Trata-se de identidade.
Além disso, o diretor Chad Stahelski, conhecido pelo trabalho na franquia John Wick, enfrenta um obstáculo ainda maior. Sua especialidade é a ação coreografada com precisão cirúrgica. Mas Highlander nunca foi apenas sobre duelos bem filmados. É uma história sobre tempo, perda e solidão. Sobre o peso da eternidade.
Se o remake priorizar apenas estética e combate estilizado, corre o risco de esvaziar a dimensão mítica que sustentou o original por décadas. Técnica sustenta ação. Mitologia sustenta legado.
O novo Highlander tem potencial. Henry Cavill possui presença física e carisma suficientes para assumir o papel, mesmo que a principio não carregue no olhar o peso da imortalidade como Christophe Lambert. Stahelski domina a linguagem da ação contemporânea. Mas o verdadeiro teste não será coreografar boas lutas.
Será preservar a alma da lenda.



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