Todo mundo está cansado de falar sobre a histórica apresentação do Bad Bunny no Super Bowl deste domingo passado. O quão icônica foi, suas simbologias e o quanto ela teria irritado tanto o Presidente Donald Trump quanto os seus eleitores. Porém, outra coisa me salta os olhos. Benito (o verdadeiro nome do artista) aqui não trás nenhum símbolo de revolta, tampouco está interessado em trazer a revolução para os povos, sabe de suas limitações como artista pop e que qualquer discurso de natureza inflamada vindo da parte dele soaria hipócrita. Optou por algo mais conciliador e acolhedor.
Anteriormente a apresentação do porto-riquenho, a banda norte-americana Green Day fez seu show no mesmo gramado horas antes, cantando todos os seus clássicos dos 2000 da era American Idiot, fazendo pequenas adaptações para descascar o atual mandatário dos EUA e os membro do MAGA. Porém nada disso pareceu incomodar nenhuma dessas partes. Aliás, o show do trio californiano foi completamente eclipsado pela mega performance de Bunny. Embora todos os elementos evocados estivessem lá (o nome do Trump, seus partidários, uma crítica ácida ao reacionarismo e ao conservadorismo americano), nada disso pareceu incomodar nenhuma parcela dessas pessoas. Enquanto que o músico rebolativo de reggaetow que cantou o show inteiro em espanhol despertou a ira dos republicanos.
Paralelo a isso, houve um show organizado pela família do Charlie Kirk que seria uma resposta ao Super Bowl, com alguns roqueiros conservadores, incluído o habitual apoiador de Trump, o Kid Rock. Lembrei-me de tempos atrás de alguns manifestantes que alegaram fraude na vitória de Biden nas eleições de 2020 que estavam na rua dançando Killing in the Name, do insuspeito grupo de esquerda Rage Against the Machine.
Naquele mesmo fim de semana, o Ministro da Secretaria Geral e deputado federal Guilherme Boulos participou do podcast 3 Irmãos e criticou o que chamou de "esquerda acadêmica", um setor progressista que só vive de fazer prognóstico do governo atual e que jamais participou de algum trabalho que movimentasse de fato a base da sociedade. Óbvio que a resposta ao Boulos não poderia ser outra que não essa mesma parcela barulhenta na Internet chamando-o de "pelego" e "ultrapassado". O influenciador marxista Ian Neves foi além insinuou que a "social democracia é a antessala do fascismo", dando a entender que o atual governo traria novamente o bolsonarismo de volta em um breve momento, ou que ambos são a face da mesma moeda.
E o que tudo isso tem a ver? Simples: o que parece ser um discurso evocativo de radicalidade em nada parece estar combatendo o lado contrário, e muita das vezes chega até a ser admirado ou endossado por certos setores de extrema direita. O chamado "radicalismo performático" parece mais encontrar ecos na sua contraparte do que contrastes, e hoje em dia o tal do discurso inflamado de revolução não mais incomoda ou amedronta ninguém. Por incrível que pareça o que deixa todos de cabelo em pé é justamente agir como o adulto na sala. Sim, aquele que não precisa passar mensagem pelo ódio, e sim pela confiança nas palavras e nos atos. Pra explicitar bem este raciocínio: o simples fato de Bunny ter botado em um de seus telões da apresentação que se combate o ódio com amor fez com que pessoas de espectros à direita e à esquerda se incomodassem com aquela mensagem.
Este texto não é pra desqualificar o Green Day, ou pra dizer que o RATM tem ou não de ser a velha nova voz de uma geração enraivecida, pelo contrário. É pra dizer que as coisas apenas passam, mudam, e que ficar preso a conceitos do passado é pura nostalgia barata e mercantilismo da revolta. Tom Morelo recentemente assinou com a Fender uma parceria pra réplicas da sua guitarra feita manualmente, e que custa em média quase 10 mil reais, um preço irreal pra qualquer trabalhador assalariado. Um influencer de esquerda supostamente revoltoso ganha em média no YouTube cerca de 5 mil a 10 mil reais por mês pela plataforma para desancar a democracia de seu país e inviabilizar os únicos projetos que de fato estão fazendo diferença para população, mesmo com suas limitações. No fim de tudo, Bad Bunny e Boulos provaram que ser o adulto na sala ainda vale a pena, enquanto que bancar o eterno jovem aos 40 anos (seja a esquerda ou a direita) é a coisa mais demodé do momento. Portanto, deixo minha pensata com os versos de Kurt Cobain na música Serve the Sevants: a juventude colheu bons frutos, mas agora sou velho e chato. E vamos evoluir.
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