O fim dos “clássicos da Sessão da Tarde”

 

O que Curtindo a Vida Adoidado, A Lagoa Azul e As Branquelas têm em comum? Todos esses filmes fazem parte do imaginário brasileiro graças a uma prática que praticamente desapareceu com o streaming.

    Durante anos, a TV aberta foi o meio mais democrático para consumir entretenimento. Jornais, programas de variedades, novelas, desenhos, séries e filmes compunham uma programação que organizava não apenas o consumo, mas também a conversa pública. Era na grade da TV que se definia o assunto do dia, às vezes da semana inteira.

    Isso não acontecia porque a TV aberta era sinônimo de qualidade, mas porque era o que havia. A TV por assinatura era restrita a quem podia pagar. Locadoras, apesar de populares, ainda tinham custo. O cinema também. A TV aberta, portanto, concentrava a atenção coletiva.

    Dentro desse contexto, um elemento foi fundamental para a formação do imaginário popular: as reprises.

    Filmes, séries, desenhos e novelas ganhavam novas exibições constantes. Não apenas por mérito artístico, mas também por necessidade de preencher a grade. Esse mecanismo, aparentemente simples, teve um efeito profundo: permitiu que obras fossem vistas, revistas e assimiladas ao longo do tempo.

    Foi assim que filmes como Curtindo a Vida Adoidado, A Lagoa Azul e As Branquelas se consolidaram como clássicos. Não apenas porque agradavam, mas porque eram amplamente vistos, repetidamente e, principalmente, ao mesmo tempo. O título de “clássico da Sessão da Tarde” não surge por acaso, ele é resultado direto dessa lógica de exibição.

    O fenômeno não se restringiu à Globo. O SBT também construiu seu próprio repertório, enquanto a TV por assinatura reforçou esse modelo. Filmes como Identidade Bourne foram exibidos diversas vezes em canais como o Universal Channel. Ainda assim, era a TV aberta que validava, em escala massiva, o que entrava ou não no imaginário coletivo.

    Esse processo só era possível porque havia concentração de audiência. A programação criava uma experiência compartilhada. Quando um filme passava em determinado horário e funcionava, ele se tornava assunto. Quem não assistisse, dependia da próxima reprise. Com pouca oferta e muita repetição, alguns títulos ganhavam força cultural.

    O streaming rompe esse modelo.

    Ao oferecer um catálogo praticamente infinito, com lançamentos constantes e consumo sob demanda, ele elimina a lógica da grade e da simultaneidade. Cada pessoa assiste ao que quer, quando quer. O resultado é a fragmentação da audiência.

    Sem repetição massiva e sem experiência compartilhada, a construção de clássicos muda de natureza. O streaming ainda produz sucessos, mas dificilmente produz obras com o mesmo nível de penetração coletiva da TV aberta.

    Antes, milhões de pessoas podiam estar assistindo ao mesmo filme na mesma noite. Hoje, essas mesmas pessoas estão distribuídas entre milhares de conteúdos diferentes. Isso tem uma consequência direta: o enfraquecimento da memória cultural compartilhada.

    Filmes mais recentes não necessariamente são piores do que os do passado, mas enfrentam um ambiente em que a atenção é dispersa e o tempo de maturação é curto. São lançados, consumidos e rapidamente substituídos.

    As reprises, por outro lado, davam tempo. Davam visibilidade contínua. Permitiam redescoberta. Criavam familiaridade. Transformavam filmes em referência.

    Sem esse processo, muitos títulos contemporâneos têm mais dificuldade de se consolidar. Eles não desaparecem imediatamente, mas também não se fixam com a mesma força.

A TV aberta criava memória.

O streaming cria fluxo.

E, no meio desse fluxo, cada vez menos obras conseguem permanecer.