Há trinta anos, em 11 de março de 1996, às 18h15, boa parte das crianças sintonizava a TV na Rede Manchete para assistir a mais um capítulo do sucesso do momento, Os Cavaleiros do Zodíaco. Perder o episódio significava chegar ao recreio no dia seguinte completamente deslocado. A televisão não era apenas entretenimento, era sincronização social.
Assistir TV era um ritual coletivo. A grade engessada e a escassez de opções impunham horário e duração. O tempo da programação organizava o tempo do espectador. Não havia pausa sob demanda, não havia replay imediato, não havia catálogo infinito. Havia fluxo. E esse fluxo criava compromisso.
O ritual não era exclusivo da TV aberta. Mesmo a TV por assinatura, com maior variedade de canais, ainda exigia que o espectador reservasse algumas horas para se dedicar a um conteúdo. Havia comerciais, mas eles já estavam incorporados à experiência. A pausa fazia parte do ritmo. O fluxo continuava sendo externo ao espectador.
Até quando o controle parecia maior, como no caso da locadora, o tempo ainda exigia administração. Era preciso escolher o filme, deslocar-se até a loja, respeitar o prazo de devolução. Assistir ao filme alugado envolvia organização e limite. O acesso era ampliado, mas não ilimitado.
Alugar um filme não era apenas decidir o que assistir. Era um gesto que envolvia tempo, dinheiro e escolha consciente. A escassez impunha seleção. A experiência tinha peso porque havia custo e duração definidos.
Nesse contexto surgia o que podemos chamar de “atenção pescada”. Você mudava de canal e era capturado por algo que já estava em andamento. Um filme pela metade, um episódio fora de ordem, um desenho já iniciado. A descoberta não era personalizada, era contingente. O acaso tinha papel central na formação de repertório cultural.
A televisão aberta operava por simultaneidade massiva. Milhares, às vezes milhões de pessoas, podiam estar assistindo ao mesmo filme na mesma noite. Mesmo em cidades diferentes, existia uma experiência síncrona. Era uma conectividade simbólica, sustentada pela grade fixa e pelo compartilhamento do mesmo fluxo audiovisual.
Essa estrutura produzia efeitos culturais concretos. Criava referências comuns, alimentava conversas públicas e consolidava uma memória coletiva organizada em torno de eventos midiáticos. O inesperado não era apenas individual, era coletivo.
Com o streaming, essa lógica se altera. A escassez dá lugar à abundância. O controle sai da grade e vai para o usuário. A experiência deixa de ser organizada pela coincidência temporal e passa a ser organizada pela disponibilidade individual.
A descoberta também muda. Em vez do acaso coletivo, predominam sistemas de recomendação baseados em histórico de consumo e padrões comportamentais. O encontro com o novo tende a ser mediado por previsibilidade. O repertório se fragmenta, pois cada espectador percorre um trajeto personalizado.
Essa transformação atinge o regime de atenção. Antes, a continuidade era imposta pelo fluxo televisivo. Hoje, o tempo é fragmentável. Filmes podem ser pausados, retomados ou divididos em partes. A obra deixa de exigir permanência contínua.
É aqui que a leitura de Byung-Chul Han ajuda a aprofundar o argumento. Em Sociedade do Cansaço, o filósofo descreve uma sociedade marcada pelo excesso de estímulos e pela lógica do desempenho permanente. A abundância de possibilidades não produz necessariamente liberdade contemplativa, mas dispersão e sobrecarga.
Em No Enxame, Han analisa como a comunicação digital substitui a profundidade pela aceleração e pelo ruído constante. Aplicado ao audiovisual, isso significa que o filme passa a competir com notificações, redes sociais e múltiplas telas. A atenção deixa de ser contínua e torna-se intermitente.
Essa mudança não se limita ao cinema ou à televisão. Ela aparece em outros hábitos cotidianos, como a fotografia. Um filme analógico com 36 poses também operava sob a lógica da escassez. Cada clique exigia escolha. Havia seleção, espera pela revelação e, depois, o ritual de sentar para ver as imagens.
Com a câmera digital e o smartphone, a abundância substitui o limite. Qualquer momento pode ser registrado. Mas a facilidade também torna o gesto descartável. Produzimos mais imagens do que revisitamos. Muitas sequer são vistas novamente.
Os stories do Instagram sintetizam essa lógica. A imagem nasce com prazo de validade. Permanece por 24 horas e desaparece. O registro deixa de ser preservação e passa a ser circulação imediata.
O ponto não é nostalgia. O streaming e a tecnologia digital ampliaram acesso e autonomia. A questão é estrutural. Antes, o tempo da obra impunha sua duração ao espectador. Hoje, o espectador impõe sua disponibilidade à obra, dentro de um ambiente marcado por abundância, personalização e fragmentação.
Entre a pesca de atenção do passado e a recomendação algorítmica do presente, não mudou apenas a tecnologia. Mudou a forma como nos relacionamos com o tempo, com a atenção e com a própria experiência cultural.
O streaming oferece uma sensação de controle e de abundância, mas não entrega plenamente nenhum dos dois. O controle é relativo porque a curadoria deixou de ser pública e passou a ser algorítmica. Não escolhemos a partir do todo disponível, escolhemos a partir do que nos é exibido. A promessa de autonomia é mediada por sistemas de recomendação que filtram, priorizam e organizam o catálogo antes mesmo que possamos explorá-lo.
A abundância, por sua vez, não produz liberdade, produz fadiga. O excesso de opções desloca o momento da decisão e adia o ritual do consumo. Quando tudo está disponível o tempo todo, desaparece a urgência. Não há escassez que gere expectativa, nem simultaneidade que produza conversa coletiva.
Antes, assistir a um conteúdo criava conexão social quase automática. Havia um episódio, um horário, uma transmissão compartilhada. Hoje, enquanto você assiste a uma série em uma plataforma, outra pessoa consome algo diferente em outro serviço. A experiência deixa de ser coletiva e se fragmenta em trajetórias individuais. O repertório comum se enfraquece. Já não existe um pano de fundo cultural compartilhado com a mesma intensidade.
O que mudou, portanto, não foi apenas a tecnologia de distribuição. Mudou o regime de atenção, mudou a organização do tempo e mudou a própria lógica de formação cultural.
Não se trata de defender um retorno ao passado ou restringir o acesso. O ponto central é compreender que o modelo de abundância permanente altera a densidade da experiência estética. Quando tudo está disponível o tempo inteiro, o compromisso diminui. Quando não há limite, a escolha perde peso. Quando não há espera, a expectativa desaparece.
A consequência não é apenas tecnológica. É perceptiva. A relação com a arte se torna mais rápida, mais dispersa e menos profunda. O desafio contemporâneo não é recuperar a escassez, mas reconstruir formas de atenção que resistam à lógica da abundância.
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