O adulto que não quer crescer: de Barbie a He-Man

    Em 2023, Barbie, longa protagonizado por Margot Robbie e dirigido por Greta Gerwig, foi um fenômeno. Na trama, a Barbie estereotipada (Margot Robbie) começa a apresentar falhas em Barbieland e, por causa disso, vai ao mundo real para encontrar a humana que está conectada a ela e entender a origem de sua crise existencial.

    No mundo real, Barbie descobre que a realidade não corresponde à lógica de Barbieland e entra em contato com críticas ao impacto da boneca, percebendo que, ao mesmo tempo em que inspirou gerações, também ajudou a reforçar padrões e expectativas sobre o feminino.

    Com o sucesso do filme, a Mattel, detentora dos direitos de vários brinquedos de sucesso, decidiu investir em novas adaptações, e a bola da vez é a adaptação da linha de brinquedos Mestres do Universo, em que He-Man é o protagonista. Nessa versão, o herói, originalmente de Eternia, é enviado ao mundo real para ser protegido e, posteriormente, retorna ao seu planeta para salvar seu reino, seus amigos e o Castelo de Grayskull das garras de Esqueleto.

    Enquanto Barbie subverte expectativas ao questionar o papel feminino, He-Man pode seguir o caminho oposto, “protegendo” os homens em sua nostalgia infantil. A partir do que foi apresentado até agora, Adam, ainda criança, é enviado ao nosso mundo. Aqui, é possível interpretar esse movimento como a saída da infância para a vida adulta, que, pelos trailers, parece ser retratada como chata e monótona.

    Nesse sentido, o que ele buscaria não é apenas salvar Eternia, mas retornar a um mundo que foi obrigado a deixar. Eternia, então, pode ser lida como esse espaço de fantasia onde ele é compreendido e aceito como é.

    Muitos adultos, principalmente homens, têm dificuldade em aceitar a vida adulta, especialmente quando falamos de cultura pop. Há uma resistência em reconhecer que certas coisas mudaram, e busca-se em produções do passado um refúgio, um lugar de pertencimento. Na prática, muitos nem revisitam essas obras, mas querem que elas permaneçam intactas, preservadas, como uma espécie de cápsula da própria memória afetiva.

    Que fique claro: não estou dizendo que o filme será ruim. Trata-se de uma leitura comparativa entre dois produtos que marcaram gerações, especialmente crianças dos anos 80 e 90. Barbie, inclusive, também apresenta suas próprias contradições. No entanto, o que menos importa no filme é a própria Barbie. A verdadeira crise existencial é vivida por Glória (America Ferrera), a dona da boneca. Barbie funciona como um reflexo dessa crise, um símbolo que canaliza seus sentimentos e revela que algo não está bem.

    Glória enfrenta problemas concretos: insatisfação com o próprio corpo, frustração profissional, dificuldades no relacionamento com a filha e sinais de depressão. Ainda assim, boa parte do público não se conecta com essa dimensão da narrativa, preferindo o escapismo de “brincar de ser Barbie” em vez de encarar questões que são comuns no cotidiano adulto.

    O ponto central agora é aguardar o lançamento de He-Man e verificar se o que o trailer sugere se confirma na obra final. Caso isso se concretize, o filme pode funcionar como um retorno simbólico para esse adulto nostálgico, oferecendo um certo conforto emocional ao revisitar um universo que marcou sua infância. Um público que, muitas vezes, não consome mais essas obras, mas ainda assim deseja que elas permaneçam intocadas, como se fossem suas, mesmo sem voltar a brincar com elas.