Homem-Aranha: Um Novo Dia| Crítica com Spoilers

    Chega hoje aos cinemas Homem-Aranha: Um Novo Dia, a quarta aventura do Amigão da Vizinhança e, talvez, a mais ambiciosa da fase protagonizada por Tom Holland.

    Na trama, quatro anos se passaram desde os acontecimentos de Homem-Aranha: Sem Volta para Casa. Peter Parker agora vive completamente sozinho, tendo apagado voluntariamente sua existência da vida e da memória das pessoas que ama. Sem amigos, sem mentores e sem ninguém para dividir o peso de suas escolhas, ele dedica sua vida integralmente a proteger uma Nova York que sequer sabe seu nome.

    O diretor Destin Daniel Cretton (Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis) recebeu um enorme desafio: fazer deste filme uma história genuinamente centrada no Homem-Aranha e, ao mesmo tempo, transformá-lo na porta de entrada para os X-Men dentro do MCU.

    E sim, Sadie Sink interpreta Jean Grey. Mas ela não é a única figura ligada aos mutantes a aparecer no longa. Também conhecemos William "Bill" Metzger, personagem que, nos quadrinhos, lidera uma milícia antimutante e edita o jornal da própria organização. Em Um Novo Dia, porém, ele foi adaptado para trabalhar no Controle de Danos, sugerindo que a Marvel já começa a construir a origem do preconceito contra os mutantes dentro desse universo.

    É justamente aí que o filme perde parte de seu ritmo. O principal motivo é a ausência de um antagonista realmente marcante. Escorpião, os Ninjas do Tentáculo e até mesmo o Hulk funcionam mais como obstáculos ocasionais do que como verdadeiros vilões. Todos são utilizados por Jean Grey para alcançar seus objetivos, mas nenhum deles assume o papel de ameaça central. Nem Bill Metzger chega a ocupar esse espaço. Sua função parece muito mais narrativa do que dramática: preparar o terreno para a futura saga dos X-Men.

    A trama gira em torno de Jean Grey, que tenta encontrar sua irmã, sequestrada pelo Controle de Danos. É nesse contexto que o Homem-Aranha entra em cena. Convencido de que Jean representa um perigo, Peter passa a persegui-la sem conhecer a verdade por trás dos acontecimentos.

Sem um grande vilão, afinal, do que trata Homem-Aranha: Um Novo Dia?

A resposta está na crise de identidade de Peter Parker.

    Ao longo de suas 2h25, o filme acompanha um personagem que desistiu de ser Peter para existir apenas como Homem-Aranha. Depois de Sem Volta para Casa, quando o mundo inteiro esqueceu sua identidade — inclusive MJ e Ned —, Peter abandona qualquer tentativa de reconstruir sua vida pessoal e passa a viver exclusivamente como herói.

    Essa decisão cobra um preço alto. Após ver MJ seguindo em frente com outro namorado, Peter desenvolve uma crise de ansiedade que afeta não apenas seu estado emocional, mas também seus poderes. O estresse faz surgir teias orgânicas involuntárias e provoca desequilíbrios em suas habilidades, transformando seu conflito psicológico em um elemento físico da narrativa.

    Essa proposta lembra muito Homem-Aranha 2 (2004), de Sam Raimi. Lá, Peter sofre porque tenta conciliar duas vidas incompatíveis. O peso da responsabilidade o impede de viver como um homem comum, mas ele entende que ser o Homem-Aranha é um dever maior do que seus próprios desejos.

    Em Um Novo Dia, a lógica é diferente. O Peter do MCU não sofre por tentar equilibrar duas identidades. Ele simplesmente escolhe abandonar uma delas. Não porque precise, mas porque parece incapaz de enfrentar as consequências emocionais de tudo o que aconteceu.

    Esse é justamente o aspecto que mais me incomoda no filme. Desde sua primeira aparição no MCU, Peter Parker tem sido definido por decisões impulsivas cujas consequências recaem sobre ele mesmo. Em vez de amadurecer, ele frequentemente repete o mesmo padrão de comportamento. A impressão é que o personagem aprende uma lição ao final de cada filme, apenas para esquecê-la na aventura seguinte.

    Nem tudo, porém, são críticas. A parceria entre Homem-Aranha e Justiceiro funciona muito bem. Os dois possuem ótima química em cena e criam uma dinâmica que equilibra tensão, humor e ação sem descaracterizar suas personalidades. Depois deste filme, fica difícil não imaginar uma adaptação de A Morte de Jean DeWolff, substituindo o Demolidor pelo Justiceiro. As cenas de ação também mantêm o alto padrão das produções do personagem dentro do MCU.

    A introdução de Jean Grey talvez seja o elemento mais intrigante de toda a produção. Não pelo impacto imediato que ela exerce sobre a história do Homem-Aranha, mas pelo que representa para o futuro dos X-Men. Sadie Sink entrega uma atuação sólida e demonstra potencial para viver a personagem por muitos anos. Ainda assim, o roteiro pouco explora sua personalidade, preferindo utilizá-la como uma peça importante na construção do futuro do MCU. É uma apresentação eficiente, mas insuficiente para revelar a complexidade de uma das mutantes mais importantes da Marvel.

    No fim das contas, Homem-Aranha: Um Novo Dia é um bom filme. Funciona melhor que Longe de Casa e Sem Volta para Casa como uma história do personagem e entrega entretenimento de qualidade. Ainda assim, repete um problema recorrente do MCU: seus filmes parecem mais preocupados em preparar o próximo grande evento do que em desenvolver plenamente seus protagonistas. Curiosamente, é um defeito semelhante ao apontado por mim em Superman, de James Gunn. Em ambos os casos, o universo compartilhado acaba competindo com o próprio herói pelo protagonismo.

    O resultado é um Homem-Aranha que continua interessante, mas que parece preso a um ciclo de amadurecimento interrompido. Peter Parker aprende, sofre, cresce por alguns instantes e, logo depois, volta a cometer erros muito parecidos. Talvez essa seja uma escolha consciente para representar uma geração marcada pela dificuldade de lidar com as consequências das próprias decisões. Mas, depois de quatro filmes, já está na hora de o Homem-Aranha da Marvel Studios deixar de ser apenas uma promessa de crescimento e finalmente se tornar o herói que sua trajetória sempre prometeu.