Homem-Aranha: Um Novo Dia erra porque não entende Peter Parker

Dizer que o novo filme do Homem-Aranha é bom pode parecer contraditório quando se olha para a fase do personagem na Disney. Afinal, com Tom Holland assumindo o papel de Peter Parker, o herói vive, na minha opinião, sua pior fase nos cinemas.

Tom Holland convence fisicamente como Peter Parker e como Homem-Aranha. Ele tem o jeito, a aparência e o carisma necessários para interpretar o personagem. Mas parecer com Peter Parker não basta quando o roteiro não entende quem ele realmente é.

E essa não é uma crítica ao ator. A responsabilidade está muito mais na forma como os produtores e roteiristas decidiram construir esse Homem-Aranha. Em diversos momentos, parece que eles simplesmente não compreendem a essência de Peter Parker.

Peter é um jovem comum que aprende, por meio da dor e da perda, que todo poder traz consigo uma responsabilidade. Esse é o alicerce do personagem. A morte do Tio Ben não lhe dá apenas um motivo para vestir a máscara; ela transforma sua maneira de enxergar o mundo e define todas as escolhas que fará dali em diante.

É justamente por isso que Peter Parker e Homem-Aranha não são pessoas diferentes. O homem que sofre é o mesmo herói que salva vidas. A responsabilidade que Peter aprende na vida cotidiana é a mesma que o Homem-Aranha coloca em prática quando veste o uniforme. Não existe uma personalidade para cada identidade. Existe apenas um indivíduo tentando honrar a lição que aprendeu da forma mais difícil possível.

É justamente esse pequeno detalhe que a Disney e a Marvel não entenderam quando colocaram Peter sob o protetorado de Tony Stark. Nem mesmo quando a Tia May morre, em Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, ele aprende verdadeiramente essa lição. São os outros dois Peters, mais maduros e conscientes do peso da responsabilidade, que o impedem de matar o Duende Verde.

Ou seja, o personagem está ali, mas sua base não. E, se a Marvel errou durante três filmes, não havia motivos para acreditar que acertaria no quarto.

Homem-Aranha: Um Novo Dia poderia começar a mudar essa história, mas não o faz.

Quatro anos se passaram desde os acontecimentos de Sem Volta para Casa. Peter agora é um adulto que vive completamente sozinho, tendo apagado voluntariamente sua existência da vida e da memória das pessoas que ama. Sem amigos, sem mentores e sem ninguém para dividir o peso de suas escolhas, ele dedica sua vida integralmente a proteger uma Nova York que sequer sabe seu nome.

Assim como em Vingadores: Ultimato, Peter não consegue lidar com a perda. A diferença é que, enquanto no filme dos Vingadores os heróis vivem o luto pela morte de metade da humanidade e enfrentam um sentimento de impotência — afinal, pela primeira vez, eles falharam e o mundo parece ter aprendido a viver sem eles —, em Homem-Aranha: Um Novo Dia Peter é incapaz de seguir em frente porque não suporta o peso das próprias escolhas.

No fim de Sem Volta para Casa, foi ele quem decidiu apagar sua existência da memória de todos. Mesmo que não fosse a única forma de salvar o mundo, essa decisão teve um custo altíssimo.

Curiosamente, o impacto que mais o destrói nem parece ser a morte da Tia May. O que realmente o consome é o afastamento de Ned e MJ. A perda de sua vida pessoal pesa mais do que a perda de sua figura materna, e isso diz muito sobre como esse Peter foi construído ao longo da trilogia.

Em vez de aceitar as consequências de sua decisão e reconstruir sua vida, Peter permanece preso ao passado. Durante quatro anos, acompanha a vida dos amigos à distância, observando suas redes sociais sem jamais se permitir seguir em frente. É um homem incapaz de elaborar o próprio caminho.

Quando decide ser o Homem-Aranha em tempo integral, percebemos mais uma vez um problema recorrente dessa versão do personagem: ele usa uma de suas identidades para fugir da outra.

Em Longe de Casa, Peter queria viajar para a Europa e deixar de ser o Homem-Aranha. Agora acontece exatamente o contrário. Ele praticamente mata Peter Parker para se esconder atrás da máscara do Homem-Aranha.

Esse, para mim, é um dos maiores problemas da interpretação que a Marvel faz do personagem. Peter não assume a identidade do Homem-Aranha porque compreendeu o peso da responsabilidade. Ele a utiliza como um mecanismo de fuga, uma forma de não pensar na dor, na culpa e, principalmente, na vida que perdeu ao abrir mão de Ned e MJ. Mas nem isso consegue fazer, porque continua obcecado em acompanhar a vida dos amigos à distância.

É justamente dessa escolha que nasce a crise emocional do filme. Peter não está apenas cansado por combater o crime; ele está esgotado porque transformou o heroísmo em um refúgio psicológico.

E, quando o Homem-Aranha deixa de ser uma expressão de quem Peter Parker é para se tornar um esconderijo, o personagem perde justamente aquilo que sempre definiu sua essência.

O que a nova aventura faz é reciclar, de forma muito incompetente, a trama de Homem-Aranha 2, dirigido por Sam Raimi, justamente porque não compreende a essência do herói. O filme de Raimi é considerado por muitos não apenas um dos melhores filmes de super-heróis, mas também uma das obras que melhor definem o que significa ser um herói.

Em Homem-Aranha 2, Peter Parker vive uma profunda crise de identidade ao perceber que o peso de ser o Homem-Aranha está destruindo sua vida pessoal. Enquanto enfrenta o perigoso Doutor Octopus, ele precisa decidir se abandona a máscara para viver como um homem comum ou se aceita que a responsabilidade de ser um herói faz parte de quem ele é.

A diferença é que o Peter Parker interpretado por Tobey Maguire realmente compreende e sofre o fardo de ser um herói. Ele sabe que suas escolhas têm consequências e que, muitas vezes, precisa abrir mão da própria felicidade para cumprir sua responsabilidade.

Peter não foge de sua vida como Peter Parker; ele tenta encontrar uma forma de equilibrar suas duas identidades. Ele deixa Mary Jane seguir seu próprio caminho porque acredita que essa é a melhor maneira de protegê-la, mesmo sofrendo com essa decisão.

O sacrifício faz parte da compreensão que ele tem sobre o que significa ser o Homem-Aranha. Ele não veste a máscara para fugir de quem é, mas porque entende que essa responsabilidade faz parte de sua identidade.

Homem-Aranha: Um Novo Dia é uma cópia malfeita de Homem-Aranha 2 (2004) quando pensamos na crise de identidade e no peso que Peter precisa enfrentar. Isso não significa que o filme seja ruim, mas expõe, mais uma vez, que a Marvel não resolveu seus problemas de compreensão do personagem.

E, na verdade, ela nem precisa resolvê-los. O filme tem grandes chances de ultrapassar a marca de um bilhão de dólares nas bilheterias. Enquanto continuar dando esse retorno financeiro, por que mudar uma fórmula que, comercialmente, continua funcionando?