Hoje, assumir a identidade de outra pessoa não é uma tarefa fácil. Com as tecnologias atuais, realizar esse tipo de fraude se tornou extremamente difícil e, em muitos casos, praticamente impossível. Reconhecimento facial, redes sociais e diversos sistemas de verificação tornaram o roubo de identidade muito mais complexo.
No passado, porém, a situação era bem diferente. Muitas vezes, bastava afirmar que você era determinada pessoa e conhecer alguns detalhes da vida dela para convencer quem não tinha meios de verificar a informação. Sem internet e sem acesso rápido a registros, descobrir a verdade era muito mais complicado.
Mas e quando você não quer apenas se passar por outra pessoa, e sim por alguém que pertence à elite tradicional?
Um dos casos mais emblemáticos do Brasil é o de Marcelo Nascimento da Rocha, conhecido como Marcelo VIP. Durante o Carnaval, ele assumiu a identidade de Henrique Constantino, filho do fundador da Gol, enganando celebridades e diversas outras pessoas ao se apresentar como herdeiro da companhia aérea.
Convencer pessoas comuns de que você é milionário é relativamente fácil. O verdadeiro desafio é convencer a elite tradicional de que você faz parte daquele mundo. Afinal, por elite tradicional não estamos falando apenas de pessoas com muito dinheiro, mas de famílias influentes há gerações, que podem ou não ter origem na nobreza e compartilham hábitos, educação, referências culturais e formas de comportamento transmitidas ao longo do tempo.
Em O Sol por Testemunha, estrelado por Alain Delon e primeira adaptação cinematográfica do romance O Talentoso Ripley, de Patricia Highsmith, há uma cena que evidencia isso com perfeição. Durante um passeio de barco, Tom Ripley conversa com Philippe Greenleaf e Marge sobre o passado. O assunto chega ao pai de Philippe, que nunca aprovou a amizade dos dois por considerar Tom um rapaz sem classe, embora inteligente demais para sua condição social.
Incomodado com a conversa, Philippe reage de forma ríspida. Ao perceber que Tom tenta se portar como um homem da alta sociedade, ele o corrige de maneira humilhante ao mostrar que ele sequer sabe usar corretamente os talheres para comer peixe. A humilhação não está no erro em si, mas no fato de que Tom tenta ocupar um espaço ao qual, aos olhos de Philippe, não pertence.
A cena deixa claro que, para a elite tradicional, dinheiro não é o único elemento que define pertencimento. Existem códigos de comportamento, etiqueta, linguagem e hábitos que funcionam como uma barreira invisível entre quem nasceu naquele meio e quem apenas tenta imitá-lo.
Uma cena de contexto semelhante aparece na adaptação de 1999, protagonizada por Matt Damon, Jude Law e Philip Seymour Hoffman. Sem entrar em spoilers, Freddie Miles (Hoffman) visita seu amigo Dickie Greenleaf (Law) e encontra Tom Ripley na casa. Desde o primeiro momento, Freddie demonstra certa antipatia por Tom e começa a testá-lo. Em determinado momento, ao observar a decoração do imóvel, pergunta se a casa já veio mobiliada, afirmando que aquele estilo não combina com Dickie. Em seguida, dispara que o lugar é "medonho", excessivamente burguês.
A fala parece apenas um comentário sobre decoração, mas, na verdade, funciona como um teste. Freddie pertence à mesma elite tradicional que Dickie e domina os códigos daquele universo. Ao questionar o gosto do amigo, ele está, indiretamente, questionando Tom. Se Ripley realmente conhece Dickie tão bem quanto afirma, deveria perceber que aquele ambiente não corresponde à personalidade dele. É mais um exemplo de como, no universo de Patricia Highsmith, a verdadeira identidade não é revelada apenas por documentos ou dinheiro, mas também pelos pequenos códigos culturais que denunciam quem realmente pertence àquele círculo social.
Tom consegue convencer pessoas comuns — e até alguns novos ricos — de que pertence à elite tradicional. No entanto, encontra dificuldade quando precisa convencer aqueles que realmente nasceram naquele universo. O dinheiro pode abrir portas, mas não ensina, por si só, os códigos de comportamento, os gostos, a linguagem e as referências compartilhadas por quem cresceu naquele ambiente. Em Ripley, Patricia Highsmith mostra que pertencer à elite tradicional vai muito além da riqueza material.
É justamente essa percepção que faz a obra de Patricia Highsmith transcender o thriller de suspense e mistério. Mais do que contar a história de um golpista talentoso, a autora constrói uma reflexão sobre identidade, mobilidade social e pertencimento. Tom Ripley consegue falsificar assinaturas, assumir outras identidades e copiar estilos de vida, mas esbarra em um obstáculo muito mais difícil de superar: os códigos sociais e culturais que não podem ser comprados nem aprendidos da noite para o dia. São esses pequenos detalhes — um comentário sobre decoração, a maneira de usar um talher ou uma referência cultural — que acabam revelando quem realmente faz parte daquele círculo.
Com o relançamento dos dois primeiros livros da série Ripley pela Editora Intrínseca, novos leitores têm a oportunidade de descobrir não apenas os inúmeros talentos de Tom Ripley, mas também as camadas psicológicas e as críticas sociais presentes na obra de Patricia Highsmith. Mais do que uma história sobre golpes e assassinatos, a série revela como o pertencimento pode ser tão valioso quanto o dinheiro e como algumas barreiras sociais são muito mais difíceis de atravessar do que aparentam.


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