Redescobrindo Blackhat: o thriller cibernético de Michael Mann

    


    Quando foi lançado, em 2015, no auge da carreira de Chris Hemsworth, Blackhat não foi bem recebido pela crítica — e também não agradou a este que escreve. Na época, eu não conseguia enxergar Hemsworth como um astro de cinema e muito menos como um hacker, título pelo qual o filme ficou conhecido no Brasil.

    Dez anos depois, porém, por causa de uma publicação no Twitter, decidi finalmente dar uma chance ao filme, que, curiosamente, eu nunca havia assistido. O resultado foi um hiperfoco que durou meses e um enorme arrependimento por não ter visto antes uma obra que eu poderia ter descoberto muito tempo atrás. O mais curioso é lembrar que eu sempre encontrava o DVD nas lojas e prateleiras, mas nunca me interessei em comprá-lo.

    A trama acompanha Nicholas Hathaway, um talentoso hacker que cumpre uma pena de 15 anos de prisão. Após um ataque cibernético desencadear uma crise internacional, ele é recrutado por uma força-tarefa formada pelos governos dos Estados Unidos e da China para encontrar o responsável pelos ataques e impedir uma nova ameaça. O longa é estrelado por Chris Hemsworth.

    Em 2015, Xi Jinping estava havia apenas dois anos no poder e começava a consolidar sua influência. O que chama a atenção em Blackhat, dirigido por Michael Mann, é como a China não é tratada como uma simples coadjuvante da história. Tanto o país quanto seus personagens, Chen Lien (Tang Wei) e Chen Dawai (Leehom Wang), possuem importância dentro da narrativa. Eles não estão ali apenas para auxiliar Nicholas Hathaway, mas são personagens interessantes, com suas próprias habilidades, objetivos e motivações, despertando no espectador a curiosidade de conhecer mais sobre eles.

    Aqui, a China é apresentada como uma aliada dos Estados Unidos. Existe uma certa desconfiança entre os dois governos, mas ela aparece como uma consequência natural da situação: ninguém sabe quem está por trás do ataque cibernético, e todos são suspeitos até que as investigações revelem o verdadeiro responsável. Nesse sentido, o filme evita transformar a rivalidade entre as duas potências em um conflito simples e aposta em uma cooperação diante de uma ameaça em comum.

    É interessante pensar como a China evoluiu de forma impressionante na última década. Se em 2015 ela já era uma potência em ascensão, hoje ocupa uma posição central nas disputas por tecnologia, inteligência artificial, infraestrutura e influência geopolítica. Enquanto isso, os Estados Unidos continuam sendo a principal potência mundial em diversos aspectos, mas já não possuem a mesma hegemonia incontestável do início dos anos 2000. O mundo deixou de ser totalmente unipolar e passou a ser marcado por uma disputa mais equilibrada entre as duas maiores potências do planeta.

    O curioso é que Blackhat parece captar parte dessa transformação em um momento em que ela ainda não era tão evidente para o grande público. O filme não faz uma propaganda explícita da China, como muitas produções norte-americanas fazem ao retratar sua própria política, mas apresenta o país como uma potência tecnológica capaz de atuar em igualdade com os Estados Unidos diante de uma ameaça global. Essa talvez seja uma das escolhas mais interessantes de Michael Mann: reconhecer que o equilíbrio de forças do século XXI não poderia mais ser explicado apenas pela perspectiva norte-americana.

    Essa percepção também aparece na forma como o diretor utiliza o Sudeste Asiático. Em vez de transformar cidades como Hong Kong, Kuala Lumpur e Jacarta em simples cenários exóticos, Mann faz com que elas tenham importância dentro da narrativa. Não por acaso, é em Jacarta que o antagonista estabelece sua base de operações e onde a investigação chega ao seu desfecho, reforçando a ideia de que os grandes conflitos do século XXI ultrapassam as fronteiras tradicionais do Ocidente.

    Vista hoje, essa escolha parece ainda mais interessante. O Sudeste Asiático se consolidou como uma das regiões mais importantes da economia mundial, reunindo cadeias produtivas, rotas comerciais e centros financeiros estratégicos. Países como Singapura se tornaram polos de inovação e passaram a atrair empresas, investidores e profissionais do setor de tecnologia. Nesse sentido, Blackhat acaba funcionando quase como um retrato antecipado de um mundo cujo centro econômico e tecnológico começava a se deslocar cada vez mais para a Ásia.

    Essas escolhas de Michael Mann fazem ainda mais sentido quando lembramos de outras obras de ficção científica que refletiram as transformações econômicas de suas épocas. Nos anos 1980, por exemplo, Blade Runner imaginava um futuro cyberpunk profundamente influenciado pela cultura japonesa, enquanto a franquia Alien apresentava a corporação Weyland-Yutani, resultado da fusão entre uma empresa ocidental e outra japonesa. Essas representações dialogavam diretamente com o chamado "milagre econômico japonês", período em que o Japão era visto como a grande potência tecnológica do futuro.

    Blackhat atualiza essa lógica para o século XXI. Em vez do Japão, é a China que ocupa esse espaço como potência tecnológica emergente, enquanto o Sudeste Asiático deixa de ser apenas um pano de fundo e passa a fazer parte da construção desse futuro. A escolha de colocar momentos decisivos da investigação em cidades como Jacarta e Kuala Lumpur conversa com uma região que, anos depois, se tornaria ainda mais importante para a economia global.

    Mais recentemente, séries como Westworld também passaram a apresentar uma visão de futuro com maior presença asiática. É difícil afirmar até que ponto isso vem da visão criativa de Lisa Joy ou de uma percepção mais ampla da indústria, mas é inegável que a ascensão da China e o crescimento de centros tecnológicos como Singapura influenciaram a forma como imaginamos o futuro. Assim como o Japão moldou a ficção científica dos anos 1980, a Ásia do século XXI passou a ocupar esse espaço simbólico na construção dos futuros imaginados pelo cinema e pela televisão.


    Blackhat
ainda chama atenção quando observamos o plano do antagonista. Diferente de muitos filmes do gênero, o vilão não busca dominar o mundo ou agir por uma grande ideologia. Seu objetivo é explorar a fragilidade do sistema financeiro e das estruturas digitais para lucrar com o caos. O filme entende que, no século XXI, uma guerra não precisa necessariamente acontecer com soldados e armas tradicionais: ela pode acontecer através de códigos, mercados e infraestruturas conectadas.

    Por tudo isso, Blackhat é um filme que merece ser redescoberto. Seja pelos temas que apresenta, pela direção de Michael Mann ou pela impressionante fotografia digital do longa, existe muito mais nessa obra do que sua recepção inicial deixou perceber. Dez anos depois, o filme parece menos uma tentativa frustrada de fazer um thriller de hacker e mais um retrato de um mundo que estava mudando diante dos nossos olhos.

Você pode assistir a Blackhat no Disney+.