O Fim da Rua: quando o sonho estadunidense já não mora naquele endereço

 


    Chega aos cinemas a ficção científica O Fim da Rua (The End of Oak Street), protagonizada por Anne Hathaway, Ewan McGregor, Maisy Stella e Christian Convery.

    Não vá ao cinema esperando encontrar um filme preocupado em explicar exatamente o que está acontecendo ou por que parte de Oak Street foi misteriosamente transportada para a era dos dinossauros.

    O Fim da Rua não está particularmente interessado em oferecer essas respostas — e talvez essa seja uma de suas maiores qualidades. A proposta é outra: sente-se na cadeira e aceite a viagem.

    David Robert Mitchell sabe que está contando uma aventura e não tenta transformar sua premissa absurda em um grande quebra-cabeça a ser solucionado. Há um evento cósmico, um bairro transportado para um mundo pré-histórico e uma família tentando sobreviver. É o suficiente para colocar a história em movimento.

    No centro de tudo estão os Platt. Greg e Denise (Ewan McGregor e Anne Hathaway) vivem um casamento à beira do fim, enquanto os constantes conflitos do casal começam a atingir diretamente os filhos, Audrey e Brian (Maisy Stella e Christian Convery).

    Quando parte de seu tranquilo subúrbio é transportada para um ambiente pré-histórico e completamente desconhecido, os problemas domésticos ganham uma dimensão muito mais literal: aquela família que já estava desmoronando por dentro agora precisa sobreviver a um mundo que também desmoronou ao seu redor.

É aí que Mitchell encontra a alegoria que sustenta o filme.

A ficção científica sempre foi um terreno fértil para falar sobre outras coisas, e O Fim da Rua segue essa tradição. O deslocamento de Oak Street para a era dos dinossauros funciona como uma exteriorização do caos vivido pelos Platt. Antes mesmo de o mundo conhecido desaparecer, o mundo daquela família já estava chegando ao fim.

Por trás dos dinossauros, do evento cósmico e da luta pela sobrevivência existe uma estrutura bastante familiar ao cinema de aventura dos anos 1980, justamente a década em que a história se passa: uma família em crise é submetida a uma situação extraordinária que a obriga a confrontar aquilo que, na vida cotidiana, preferia evitar.

O caos externo passa, assim, a refletir o caos interno.

Mas David Robert Mitchell vai além do drama familiar. Seu roteiro também promove uma desmistificação do imaginário suburbano estadunidense e, principalmente, de sua iconografia: casas confortáveis, ruas tranquilas, gramados bem cuidados e bairros aparentemente seguros que, durante décadas, ajudaram a representar estabilidade, prosperidade e proteção.

    No período pós-guerra, o subúrbio tornou-se uma das grandes materializações do American Way of Life: casa própria, família nuclear, automóvel, escola, gramado e a promessa de uma vida segura, distante dos problemas associados aos grandes centros urbanos. Era uma imagem poderosa, mas também profundamente idealizada e atravessada por contradições sociais e econômicas. Não por acaso, o próprio cinema americano passou a encontrar rachaduras nessa imagem.

    Nos anos 1980, filmes como Poltergeist (1982), A Hora do Pesadelo (1984), A Hora do Espanto (1985) e Meus Vizinhos São um Terror (1989) encontraram justamente no subúrbio o cenário perfeito para produzir desconforto. Casas familiares e ruas pacatas deixavam de funcionar apenas como espaços de proteção para se transformarem em lugares de ameaça, paranoia e violência.

    O monstro já não precisava habitar um castelo distante ou uma floresta sombria. Ele poderia estar debaixo da sua casa, na residência ao lado ou simplesmente atravessar a aparentemente pacata Elm Street.

    É esse imaginário que Mitchell recupera em O Fim da Rua. O subúrbio permanece como representação de uma promessa de estabilidade, mas basta observar um pouco mais de perto para perceber como essa promessa é frágil. Há algo aqui que remete a Beleza Americana (1999), filme que também desconstrói a aparente perfeição da vida suburbana. Em diversos momentos, somos colocados diante de janelas, observando quase como voyeurs aquilo que realmente acontece dentro das casas. Por fora, permanecem as fachadas impecáveis, os jardins bem cuidados e a imagem da família perfeita; é somente quando atravessamos essas fachadas com o olhar que descobrimos os conflitos, as frustrações e os desejos escondidos por trás daquela aparente normalidade.

É justamente a família Platt que permite ao diretor aprofundar essa desconstrução.

Desde o início, existe a sensação de que eles não se encaixam perfeitamente naquele pequeno universo organizado de Oak Street. O vizinho reclama constantemente do cachorro dos Platt fazendo suas necessidades em seu quintal. É um conflito banal, quase cômico, mas que estabelece desde cedo um pequeno incômodo: aquela família destoa da ordem ao seu redor.

Dentro de casa, as rachaduras são ainda maiores.

A família nuclear está prestes a se romper com a iminente separação dos pais. A estabilidade financeira também desapareceu: Greg trabalha como entregador de pizza, enquanto as dificuldades econômicas impedem Audrey de frequentar a faculdade que deseja.

    Ao mesmo tempo, a jovem esconde da família sua orientação sexual, acrescentando outra camada à distância existente entre aquilo que aquela família aparenta ser e aquilo que seus integrantes realmente vivem.

    Mitchell, portanto, não precisa esperar pelos dinossauros para destruir o subúrbio. Antes mesmo de Oak Street ser transportada para a pré-história, o American Way of Life já está ruindo dentro da casa dos Platt.

É aí que a escolha dos anos 1980 se torna particularmente interessante. Os Platt estão muito distantes da imagem nostálgica da família suburbana que a televisão americana ajudou a cristalizar. Se pensarmos, por exemplo, nos Arnold de Anos Incríveis, encontramos uma iconografia facilmente reconhecível: pai, mãe, filhos, casa, vizinhança e uma aparente estabilidade doméstica.

Os Platt habitam visualmente um universo semelhante, mas já não conseguem reproduzir a promessa representada por aquele cenário.

A casa continua lá. O gramado continua lá. A rua tranquila continua lá.

O sonho americano é que já não parece morar naquele endereço.

Mitchell não deixa essa divisão restrita ao roteiro. Ela chega à própria linguagem visual do filme.

    Em diversos momentos, o diretor recorre ao split diopter, ou dioptria dividida, técnica fortemente associada ao cinema de Brian De Palma. O recurso permite manter simultaneamente em foco elementos localizados em planos muito distantes entre si, criando uma composição em que diferentes informações coexistem dentro do mesmo enquadramento.

    Em O Fim da Rua, o recurso ajuda a produzir tensão, mas ganha uma dimensão ainda mais interessante quando aplicado aos Platt. Personagens aparecem em diferentes regiões e profundidades do quadro, visualmente próximos e, ao mesmo tempo, separados.

É uma escolha formal bastante coerente para uma história sobre uma família que ainda ocupa a mesma casa, mas já não parece compartilhar o mesmo espaço emocional.

Eles estão juntos no enquadramento, mas estão divididos.

Essa preocupação com a forma também aparece no ritmo. O Fim da Rua sabe que existe um drama familiar no centro da história, mas nunca se esquece de que estamos diante de um filme de aventura e ficção científica.

Mitchell encontra um bom equilíbrio entre esses dois lados. Há espaço para os personagens, seus conflitos e momentos mais íntimos, mas o longa não fica aprisionado ao drama doméstico. Quando a narrativa precisa avançar, ela avança.

As sequências de ação funcionam, os dinossauros representam uma ameaça constante e o perigo mantém a história em movimento. Mais importante, porém, é que ação e drama não existem como duas partes independentes do filme.

É justamente diante do perigo que os Platt são obrigados a funcionar novamente como uma família. Correr, proteger uns aos outros e sobreviver deixam de ser apenas necessidades físicas e passam a fazer parte do processo de reconstrução daqueles vínculos.

E talvez esteja aí uma das ideias mais interessantes de O Fim da Rua: os Platt não precisam reconstruir a família perfeita.

Porque talvez ela nunca tenha existido.

Eles não precisam reproduzir a imagem idealizada do American Way of Life, nem corresponder à fantasia de felicidade representada pelas casas, pelos gramados e pelas famílias sorridentes do imaginário suburbano. Precisam apenas descobrir se, mesmo com suas diferenças, frustrações e imperfeições, ainda existe alguma coisa entre eles que vale a pena preservar.

Nesse sentido, voltar para casa não significa necessariamente voltar ao que existia antes. Significa descobrir que tipo de família eles podem ser depois de tudo aquilo.

O Fim da Rua é, acima de tudo, um bom filme de ficção científica e aventura. Não reinventa o gênero, tampouco parece interessado nisso. David Robert Mitchell parte de uma premissa deliciosamente absurda — jogar um pedaço do subúrbio americano na era dos dinossauros — para entregar entretenimento sem abrir mão de algo a dizer sobre família, pertencimento e a fragilidade daquele sonho de estabilidade vendido durante décadas pelo imaginário americano.

Talvez seu maior problema esteja fora da tela. Chegar aos cinemas em um momento de forte concorrência, com grandes produções disputando a atenção do público, pode fazer com que O Fim da Rua passe despercebido em sua primeira passagem pelas salas.

Seria uma pena.

Este tem exatamente o perfil daqueles filmes que podem não encontrar imediatamente seu público no cinema, mas acabam sendo redescobertos mais tarde no streaming ou conquistando uma nova vida com o passar dos anos.

E talvez isso seja especialmente apropriado para um filme tão interessado em desmontar aparências Afinal, David Robert Mitchell não precisou apenas colocar dinossauros em um subúrbio americano para tornar Oak Street ameaçadora. Aquele mundo já estava desmoronando muito antes de eles chegarem.