Quando o acesso substitui a posse: quem controla a cultura digital?

A cultura está deixando de ocupar espaço dentro de casa

Cada vez mais, a nossa relação com os bens culturais está migrando para o digital. O dinheiro está no celular, os documentos estão na nuvem e boa parte do nosso entretenimento deixou de depender de objetos físicos. Filmes e séries estão nos serviços de streaming, músicas estão nos aplicativos e até os livros podem ser carregados inteiros dentro de um único dispositivo.

À primeira vista, poderíamos interpretar isso apenas como uma substituição: o livro de papel pelo e-book, o DVD pelo streaming, a revista impressa pela tela. Mas talvez essa explicação seja simples demais.

O que está acontecendo não é apenas uma mudança de suporte. Existe também uma transformação na própria relação que temos com a cultura.

Durante muito tempo, era comum que livros, revistas, CDs, DVDs e outros objetos de entretenimento fizessem parte do ambiente doméstico. Eles ocupavam estantes, mesas e prateleiras. Eram objetos que podiam ser vistos, tocados, emprestados, colecionados e, principalmente, preservados.

O que você tinha era seu. Você possuía aquele conteúdo e, mais do que isso, possuía uma versão física, original, que permaneceria com você independentemente das decisões de uma empresa.

Hoje, a realidade é diferente.

E, sem querer soar alarmista, talvez estejamos caminhando para um cenário preocupante. Não necessariamente porque seja impossível voltar atrás, mas porque cada vez menos pessoas parecem considerar essa discussão importante.

Talvez esse seja o ponto mais delicado. Ainda existe a possibilidade de preservar aquilo que estamos perdendo, mas muitos sequer querem discutir essa ideia. Afinal, qualquer tentativa de manter ou recuperar algo do passado costuma ser encarada como resistência ao progresso. O digital, a nuvem e os serviços por assinatura são frequentemente apresentados como o futuro inevitável.

Mas toda mudança de paradigma traz consequências. E uma delas é que, quando deixamos de possuir uma obra, alguém passa a controlar a forma como ela chega até nós.

Quando uma obra pode ser alterada

Um exemplo disso aconteceu recentemente no Disney+.

A Disney alterou um episódio de Falcão e o Soldado Invernal. A mudança ocorreu no episódio "Mercado do Poder", que mostrava a morte do cientista responsável por recriar o soro do super-soldado. Na cena original, havia uma grande quantidade de sangue, removida posteriormente na pós-produção, deixando apenas o corpo do cientista caído no chão.

Mas essa não foi a única alteração. Em outro momento, Bucky atira contra uma mercenária um cano que estava preso à parede de um contêiner. Na nova versão, menos violenta, o cano apenas bate no contêiner e retorna, reduzindo o impacto da cena.

Essas mudanças podem parecer insignificantes, mas estão se tornando cada vez mais comuns, principalmente nos serviços de streaming.

Outro exemplo ocorreu em Os Simpsons. Em um dos episódios, uma personagem de baixa estatura aparecia ao lado do famoso bar do Moe, frequentado por Homer. A cena fazia referência a uma antiga namorada do personagem, mas foi removida pela Disney quando a série passou a integrar o catálogo do streaming.

É importante dizer que não estou discutindo, aqui, se essas mudanças são certas ou erradas. O ponto é outro: elas demonstram que uma obra pode ser alterada depois de lançada e que, para a maioria do público, essa passa a ser a única versão disponível.

Agora imagine a seguinte situação: com as pessoas reassistindo cada vez menos aos filmes, com as reprises praticamente desaparecendo da televisão e com o mercado de mídia física encolhendo, o que acontece se um serviço de streaming decidir alterar um filme inteiro? Seja suavizando cenas, mudando diálogos, alterando contextos ou até removendo personagens.

Qual será a versão considerada oficial? Como fica a integridade da obra? E, mais importante: quem passa a controlar essa memória cultural?

O caso Anthropic

Essa reflexão nos leva a outro caso recente.

A Anthropic, empresa responsável pelo Claude, comprou milhões de livros físicos para digitalizá-los, utilizá-los no treinamento de seus modelos de inteligência artificial e, posteriormente, descartou os exemplares físicos. Paralelamente, também foi alvo de ações judiciais por manter uma enorme biblioteca composta por milhões de livros pirateados obtidos em sites ilegais, utilizados durante o desenvolvimento de seus sistemas.

À primeira vista, esse caso parece não ter relação com as alterações feitas pela Disney. Mas ambos revelam a mesma mudança de paradigma.

O livro, o filme ou a série deixam de existir, para a maioria das pessoas, como um objeto que pode ser preservado e passam a existir como arquivos controlados por grandes empresas.

Quem controlará as obras no futuro?

Isso nos leva a uma pergunta inevitável.

Se cada vez menos pessoas possuem exemplares físicos ou versões originais das obras, quem poderá garantir, no futuro, que elas continuam exatamente como foram lançadas?

Não estou dizendo que empresas estejam reescrevendo a história. Estou dizendo que, pela primeira vez, temos uma estrutura tecnológica em que isso pode ser feito em larga escala e, talvez mais importante do que isso, uma sociedade que parece cada vez menos preocupada em preservar os originais.

Talvez o verdadeiro debate não seja entre o físico e o digital.

Talvez a questão seja outra: quando deixamos de possuir uma obra, também começamos a abrir mão do controle sobre ela.