A exquerda gosta do artista ou do personagem que criou para ele?

 


    O cantor João Gomes está no centro de uma polêmica que, em períodos eleitorais, sempre volta a atingir os artistas: a cobrança para que tornem públicas suas posições políticas. O músico decidiu permanecer em silêncio em um momento delicado para o país: as eleições presidenciais. Como acontece em outros períodos eleitorais, parte do público de exquerda iniciou uma espécie de caça às bruxas nas redes sociais, cobrando que artistas tornassem públicas suas intenções de voto para presidente. E um dos alvos da vez foi justamente João Gomes.

    No caso dele, a situação ganha ainda outro elemento: o fato de ser nordestino. A pressão parece adquirir um peso diferente justamente porque suas raízes, sua música e sua imagem estão fortemente associadas ao Nordeste. Parte do mesmo público que sempre exaltou João Gomes por suas raízes nordestinas agora parece utilizar essa própria identidade como argumento para exigir que ele declare aos quatro cantos em qual candidato pretende votar.

    E é justamente aí que a discussão começa a ficar mais complicada. Em um olhar mais superficial, eu poderia chegar à conclusão de que João conquistou parte de seu prestígio não apenas por seu talento, mas também por aquilo que suas raízes passaram a representar para determinado público. A ânsia de uma parcela da exquerda de valorizar determinadas pessoas não somente pelo que elas produzem ou apresentam, mas também pelo que elas são e representam, faz com que esse tipo de questionamento apareça.

    Porque agora, quando o cantor decide se calar, suas raízes deixam de funcionar apenas como motivo de prestígio e passam a ser utilizadas também como instrumento de cobrança. E é justamente aqui que entra o ponto que mais me interessa nessa discussão: tenho a impressão de que uma parcela da exquerda não valoriza determinados artistas apenas pela qualidade de suas obras, mas também — e, em alguns momentos, principalmente — pelo significado político e cultural que essas figuras passam a representar.

    Um exemplo recente desse fenômeno pode ser observado com Bad Bunny. Antes mesmo de sua apresentação no Super Bowl, o cantor já havia sido colocado por parte desse público em um lugar que ultrapassava sua qualidade musical. Com o álbum DeBÍ TiRAR MáS FOToS, profundamente marcado por Porto Rico, por suas referências culturais e por uma valorização explícita de suas raízes, Bad Bunny passou a representar, para muita gente, algo maior do que simplesmente um artista de enorme sucesso.

Sua obra ajudou a fortalecer a imagem do cantor como uma espécie de símbolo de orgulho porto-riquenho e latino. E é nesse ponto que acho interessante observar o mecanismo: suas raízes deixam de ser apenas parte daquilo que ele produz artisticamente e passam também a funcionar como uma espécie de virtude pública. O artista começa a ser celebrado não somente pelo disco, pelas músicas ou pela qualidade de suas apresentações, mas pelo significado cultural e político que sua própria identidade passa a carregar.

Nesse sentido, o Super Bowl não criou essa representação. Talvez tenha sido apenas o seu ápice.

    Durante a apresentação, Bad Bunny cantou em espanhol e levou referências explícitas a Porto Rico e à cultura latina para um dos maiores símbolos do entretenimento norte-americano. Para parte da exquerda que acompanhei nas redes brasileiras, aquilo deixou rapidamente de ser apenas uma apresentação musical e passou a funcionar quase como a confirmação definitiva daquilo que já vinha sendo projetado sobre o artista.

    Os comentários seguiram justamente essa direção: “olha como ele enfrentou os ianques”, “olha o orgulho latino”, “olha como entrou no maior palco dos Estados Unidos cantando em espanhol”. Bad Bunny deixou, naquele momento, de ser apenas um cantor porto-riquenho se apresentando no Super Bowl e passou a representar, para aquele público, o latino que entrou no coração do espetáculo norte-americano sem abandonar suas origens.

    No Brasil, pelo menos na parcela da internet que acompanhei, durante talvez uma semana parecia que todos haviam se olhado e se reconhecido como latino-americanos, pertencentes a uma mesma cultura. A apresentação passou a funcionar como uma espécie de afirmação coletiva da latinidade.

    E é justamente isso que me interessa. Não significa dizer que Bad Bunny não tenha qualidade ou que João Gomes não tenha talento. A questão é outra: em determinados momentos, parece que o valor artístico passa a dividir espaço — e, às vezes, até perde espaço — para o valor simbólico que aquele artista representa.

    Bad Bunny já construía sua obra exaltando Porto Rico, sua identidade latina e sua língua. O que ocorreu durante o Super Bowl foi a amplificação máxima disso. Uma identidade artística que já vinha sendo celebrada ganhou um palco gigantesco e, junto dele, um significado político ainda maior para quem já enxergava o cantor dessa forma.

    Passado aquele momento, porém, toda aquela identificação parece ter perdido força. Bad Bunny pode continuar sendo ouvido pelas mesmas pessoas, claro, mas aquela exaltação coletiva da latinidade já não parece ocupar o mesmo espaço. O artista segue navegando, mas agora como um barco mais distante das luzes do farol. E, junto com ele, parece ter ido embora também parte daquela latinidade que, por alguns dias, havia sido reivindicada com tanta intensidade.

    Com João Gomes, guardadas as diferenças, vejo um mecanismo parecido. Durante anos, parte desse mesmo campo político exaltou suas raízes nordestinas, sua ligação com o forró, sua origem e até elementos visuais de sua identidade artística, como o chapéu associado ao cangaço. João Gomes não era celebrado apenas como cantor: também passou a simbolizar uma determinada ideia de Nordeste.

    E aqui está o ponto central: não estou dizendo que João Gomes não tenha talento, assim como não estou dizendo que Bad Bunny seja um artista sem qualidade. Isso reduziria demais a discussão. O que me interessa é perceber como, em determinados ambientes, a qualidade artística passa a dividir espaço com aquilo que o artista simboliza. O problema aparece quando essa representação deixa de funcionar apenas como motivo de admiração e passa a carregar uma obrigação.

    Se as raízes nordestinas de João Gomes serviram também para transformá-lo em símbolo, agora essas mesmas raízes parecem ser utilizadas por alguns para cobrar dele um comportamento político específico. E talvez essa seja a contradição mais interessante de todas: primeiro transformamos o artista em representante de uma identidade. Depois nos irritamos quando descobrimos que ele não necessariamente pensa, age ou vota da maneira que imaginávamos que alguém daquela identidade deveria pensar, agir ou votar.

    Talvez o maior problema esteja justamente aí: não em João Gomes ter frustrado uma expectativa política, mas no fato de essa expectativa talvez ter sido criada antes mesmo de ele dizer que queria ocupá-la. Em outras palavras, talvez parte do público tenha criado uma versão política de João Gomes que nunca existiu de fato e agora cobre do artista fidelidade a um personagem que foi construído muito mais por quem o observa do que por ele próprio.

    João Gomes, aliás, já havia dado indícios de como lida com esse tipo de situação. Em 2022, durante uma apresentação no Rock in Rio, o cantor participou de um coro contra Jair Bolsonaro. Depois da repercussão, voltou atrás, pediu desculpas e afirmou que havia sido irresponsável e desrespeitado parte de seus fãs.

    Podemos discutir o motivo dessa mudança de postura. Pode ter sido uma reflexão sincera, preocupação com a repercussão, medo de perder público, uma decisão comercial ou uma mistura dessas coisas. Não temos como entrar na cabeça do artista e determinar com certeza aquilo que motivou sua atitude.

E talvez seja justamente aí que esteja a moral dessa história.

    Não precisamos transformar cada eleição em uma caça por posicionamentos de artistas. João Gomes não precisa declarar seu voto para satisfazer quem acredita que, por ser nordestino, deveria apoiar determinado candidato. Se quiser falar, que fale. Se quiser permanecer em silêncio, essa também é uma escolha.

Só que o público também faz escolhas.

    Isso significa que ninguém precisa obrigar João Gomes a falar para depois aplaudi-lo porque disse exatamente aquilo que esperávamos ouvir. Podemos simplesmente observar suas atitudes — inclusive seu silêncio — e decidir o que fazer a partir delas.

    Cabe a cada pessoa refletir se vale a pena misturar política e consumo cultural ou se prefere continuar separando as duas coisas. E também cabe ao público decidir se quer continuar dando audiência, dinheiro e prestígio a um artista que escolheu permanecer em silêncio.

    Esse silêncio pode vir do medo, dos negócios, da preocupação em preservar o público, de uma convicção pessoal ou até da covardia. Cada um pode fazer sua leitura e agir de acordo com ela.

    O artista tem o direito de permanecer calado. Mas esse direito não cria no público a obrigação de continuar prestigiando-o.

    Talvez seja mais coerente fazer essa escolha individualmente do que exigir uma declaração pública apenas para ouvir do artista aquilo que já queríamos que ele dissesse.

    E, principalmente, talvez seja melhor do que primeiro transformar alguém em símbolo de uma identidade e depois exigir que essa pessoa seja fiel ao personagem político que nós mesmos criamos para ela.