As obras Ilíada e Odisseia ocupam um lugar central no
imaginário coletivo. Embora muitos nunca tenham lido os poemas originais
atribuídos a Homero, a Guerra de Troia e a jornada épica de Odisseu tornaram-se
pilares culturais que atravessaram milênios, inspirando incontáveis adaptações.
Uma nova versão cinematográfica promete agora imortalizar esse legado para as
novas gerações. Sob a direção do premiado Christopher Nolan, o filme "Odisseia"
propõe uma releitura da Guerra de Troia e do penoso regresso de Odisseu
(interpretado por Matt Damon) ao seu lar e reino em Ítaca.
O grande trunfo do novo longa, além do elenco estelar
composto por Matt Damon, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Zendaya, Charlize
Theron, Elliot Page, Samantha Morton, Jon Bernthal, John Leguizamo e Tom
Holland, é o fato de ser o primeiro filme filmado inteiramente com câmeras
IMAX. Esta é uma tecnologia na qual o diretor aposta desde o seu grande
sucesso, Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008).
Contudo, ao mesmo tempo em que é impressionante o uso das
câmeras IMAX — dado o enorme trabalho de manuseio devido ao tamanho, peso e
ruído do equipamento —, Nolan não parece alcançar a dimensão monumental que
muitos esperavam com tamanha tecnologia em mãos. Embora o filme apresente
sequências visualmente impactantes ao longo de suas quase três horas, o diretor
falha em entregar um épico que ressoe com a mesma mística de Lawrence da Arábia.
A comparação surge devido a uma tendência inevitável de comparar a nova obra com a grandiosidade do clássico dirigido por David Lean. Enquanto Nolan domina a nitidez técnica, ele parece distante da maestria de Lean na composição de planos que utilizam a profundidade de campo para situar o homem diante da imensidão. Em Lawrence, a paisagem não é apenas um cenário, mas um personagem que esmaga e transforma o protagonista; em Odisseia, o IMAX entrega o detalhe, mas muitas vezes perde a sensação de escala humana e o tempo contemplativo necessários para que o cenário se torne transcendental.
Odisseia tem seus méritos, principalmente por possuir o
potencial de fixar o grande poema grego na cultura pop contemporânea. O que
destaco na obra, além da sequência no Hades — que é visualmente incrível —, é a
camada psicológica do protagonista.
O Odisseu de Matt Damon é o herói trágico que não consegue
suportar o fardo de voltar para casa; ele adia esse retorno, consumido pela
vergonha. Nesta releitura, Odisseu pode até ser interpretado como o verdadeiro
responsável pela tragédia da guerra. Seja por ser o homem que idealiza o
Juramento de Tíndaro (embora não mencionado no filme), seja por arquitetar o
famoso "presente de grego", o Cavalo de Troia.
Percebemos aqui o fardo do homem inteligente que usa sua sapiência para arquitetar eventos que resultam na destruição de outros homens. É a inteligência a serviço da guerra, e a culpa como o preço da vitória. O herói sofre ao ponto de ver uma das vítimas do saque grego a Troia se personificando em Atena (Zendaya), lembrando-o constantemente de seu fardo. Essa escolha de roteiro permite uma leitura que remete diretamente ao trabalho anterior de Nolan: Oppenheimer. Assim como o físico que criou a bomba, Odisseu observa com vertigem sua criação: o cavalo que levou a morte para dentro dos portões de Troia.
Um destaque especial deve ser dado a Robert Pattinson. Mesmo
com pouco tempo de tela, o ator consegue personificar a inveja e a covardia de
forma magistral. Deixando definitivamente para trás o estigma de Crepúsculo,
Pattinson entrega uma atuação versátil que faz o espectador esquecer seus
papéis anteriores, consolidando-se como um dos grandes nomes de sua geração.
No entanto, o filme ainda enfrenta o desafio de sua própria
escala. Com quase três horas de duração e escolhas de elenco que podem gerar
debates — como a presença de Elliot Page —, Odisseia corre o risco de afastar
parte do público. Mas, como o nome de Christopher Nolan tornou-se uma marca
poderosa após o sucesso de Oppenheimer, é provável que o longa tenha um bom
desempenho comercial.
Odisseia é um épico moderno que, infelizmente, não ousa tanto quanto poderia, mas que ainda assim apresenta um bom subtexto e interpretações sólidas. O gênero épico parece viver um hiato de grandiosidade real, e Nolan, apesar de sua maestria técnica, acaba sendo vítima dessa tendência contemporânea de focar mais no dispositivo do que na mística. No fim, fica a sensação de que, neste caso específico, o nome do diretor acabou se tornando maior do que o próprio filme.

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