A Odisseia (2026) Crítica

 


    As obras Ilíada e Odisseia ocupam um lugar central no imaginário coletivo. Embora muitos nunca tenham lido os poemas originais atribuídos a Homero, a Guerra de Troia e a jornada épica de Odisseu tornaram-se pilares culturais que atravessaram milênios, inspirando incontáveis adaptações. Uma nova versão cinematográfica promete agora imortalizar esse legado para as novas gerações. Sob a direção do premiado Christopher Nolan, o filme "Odisseia" propõe uma releitura da Guerra de Troia e do penoso regresso de Odisseu (interpretado por Matt Damon) ao seu lar e reino em Ítaca.

    O grande trunfo do novo longa, além do elenco estelar composto por Matt Damon, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Zendaya, Charlize Theron, Elliot Page, Samantha Morton, Jon Bernthal, John Leguizamo e Tom Holland, é o fato de ser o primeiro filme filmado inteiramente com câmeras IMAX. Esta é uma tecnologia na qual o diretor aposta desde o seu grande sucesso, Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008).

    Contudo, ao mesmo tempo em que é impressionante o uso das câmeras IMAX — dado o enorme trabalho de manuseio devido ao tamanho, peso e ruído do equipamento —, Nolan não parece alcançar a dimensão monumental que muitos esperavam com tamanha tecnologia em mãos. Embora o filme apresente sequências visualmente impactantes ao longo de suas quase três horas, o diretor falha em entregar um épico que ressoe com a mesma mística de Lawrence da Arábia.

    A comparação surge devido a uma tendência inevitável de comparar a nova obra com a grandiosidade do clássico dirigido por David Lean. Enquanto Nolan domina a nitidez técnica, ele parece distante da maestria de Lean na composição de planos que utilizam a profundidade de campo para situar o homem diante da imensidão. Em Lawrence, a paisagem não é apenas um cenário, mas um personagem que esmaga e transforma o protagonista; em Odisseia, o IMAX entrega o detalhe, mas muitas vezes perde a sensação de escala humana e o tempo contemplativo necessários para que o cenário se torne transcendental.

    Odisseia tem seus méritos, principalmente por possuir o potencial de fixar o grande poema grego na cultura pop contemporânea. O que destaco na obra, além da sequência no Hades — que é visualmente incrível —, é a camada psicológica do protagonista.

    O Odisseu de Matt Damon é o herói trágico que não consegue suportar o fardo de voltar para casa; ele adia esse retorno, consumido pela vergonha. Nesta releitura, Odisseu pode até ser interpretado como o verdadeiro responsável pela tragédia da guerra. Seja por ser o homem que idealiza o Juramento de Tíndaro (embora não mencionado no filme), seja por arquitetar o famoso "presente de grego", o Cavalo de Troia.

    Percebemos aqui o fardo do homem inteligente que usa sua sapiência para arquitetar eventos que resultam na destruição de outros homens. É a inteligência a serviço da guerra, e a culpa como o preço da vitória. O herói sofre ao ponto de ver uma das vítimas do saque grego a Troia se personificando em Atena (Zendaya), lembrando-o constantemente de seu fardo. Essa escolha de roteiro permite uma leitura que remete diretamente ao trabalho anterior de Nolan: Oppenheimer. Assim como o físico que criou a bomba, Odisseu observa com vertigem sua criação: o cavalo que levou a morte para dentro dos portões de Troia.

    Um destaque especial deve ser dado a Robert Pattinson. Mesmo com pouco tempo de tela, o ator consegue personificar a inveja e a covardia de forma magistral. Deixando definitivamente para trás o estigma de Crepúsculo, Pattinson entrega uma atuação versátil que faz o espectador esquecer seus papéis anteriores, consolidando-se como um dos grandes nomes de sua geração.

    No entanto, o filme ainda enfrenta o desafio de sua própria escala. Com quase três horas de duração e escolhas de elenco que podem gerar debates — como a presença de Elliot Page —, Odisseia corre o risco de afastar parte do público. Mas, como o nome de Christopher Nolan tornou-se uma marca poderosa após o sucesso de Oppenheimer, é provável que o longa tenha um bom desempenho comercial.

    Odisseia é um épico moderno que, infelizmente, não ousa tanto quanto poderia, mas que ainda assim apresenta um bom subtexto e interpretações sólidas. O gênero épico parece viver um hiato de grandiosidade real, e Nolan, apesar de sua maestria técnica, acaba sendo vítima dessa tendência contemporânea de focar mais no dispositivo do que na mística. No fim, fica a sensação de que, neste caso específico, o nome do diretor acabou se tornando maior do que o próprio filme.